El Niño nas Amazônias: as soluções existem, mas precisam chegar a tempo
No GT de Saúde e Clima da Concertação, representantes de territórios, pesquisadores e gestores públicos discutiram os impactos do fenômeno climático El Niño e o que é preciso fazer para que a resposta chegue antes da emergência.
Da sede do município de Altamira, no Pará, até a Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio são mais de 400 quilômetros. Não há estrada: o caminho é o rio. E, na seca, o rio deixa de ser caminho.
“A gente chama de riozinho, mas na verdade é como se fosse um igarapé. Nesses momentos de seca extrema, o impacto é gigante. Áreas ficam realmente isoladas. Não tem navegabilidade.”
O relato é de Fernanda Cabreira, da Associação das Resex da Terra do Meio, que acompanha mais de mil pessoas nas Resex Riozinho do Anfrísio, Rio Iriri e Rio Xingu. Quando o nível da água baixa, uma remoção de emergência pode levar até oito dias.
O impacto do El Niño no território amazônico inspirou as últimas duas reuniões do GT de Saúde e Clima de Uma Concertação pela Amazônia, que contaram também com a presença de Eugênio Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria; Izabela Jatene, pesquisadora da UFPA e integrante do Conselho Nacional de Justiça; e Paulo de Tarso Oliveira, professor titular do PPGP-UFPA e integrante da Coordenação da Agenda de Saúde na Amazônia do Ministério da Saúde.
As reuniões do GT aconteceram no mesmo período em que o Ministério da Saúde apresentou o Plano Federal de Preparação e Resposta aos Eventos Climáticos associados ao El Niño 2026–2027. Nesse contexto, o debate se organizou em torno de uma questão central: como fazer com que a preparação federal se traduza em resposta efetiva nos territórios?
Quando o clima interrompe o cuidado
As secas de 2023 e 2024 deixaram uma referência recente do que pode acontecer. Para o novo episódio de El Niño, considerado forte pelo Ministério da Saúde, o período crítico esperado é entre outubro de 2026 e março de 2027.
Izabela Jatene fez, no encontro, uma ressalva que reposiciona o debate. O termo que circula, “super El Niño”, sugere excepcionalidade, e a excepcionalidade convida à resposta pontual.
“Não existe super El Niño. Existe um El Niño que vai ser mais forte do que os outros”, disse ela. “Hoje é o Super. O próximo é o Mega. E daí para frente, como é que a gente vai lidar com isso?”
A distinção importa porque muda o tipo de resposta que se constrói. Um evento extraordinário justifica uma operação emergencial. Um fenômeno recorrente exige infraestrutura permanente.
Nas comunidades, os efeitos da estiagem não se limitam à falta de água.
Quando os rios baixam, insumos deixam de chegar, profissionais ficam isolados, consultas são interrompidas e pacientes crônicos podem ficar sem acompanhamento e medicamentos. O pré-natal é prejudicado e partos de risco podem acontecer fora da rede de saúde. A vacinação pode ser comprometida pela interrupção da cadeia de frio. A fumaça das queimadas agrava problemas respiratórios, enquanto surtos de diarreia e doenças de pele podem se intensificar.
E os impactos permanecem depois que a chuva retorna.
Segundo Eugênio Scannavino, comunidades atendidas pelo Saúde e Alegria podem perder não apenas a produção durante a estiagem, mas também a renda dos meses seguintes. Na Terra do Meio, a perda da safra de castanha tem efeito direto sobre a segurança alimentar.
“Não é uma questão do momento do clima”, resumiu ele. “A questão é o impacto que isso causa de forma continuada.”
Foi a partir daí que Eugênio propôs a imagem que ficou do encontro. Um planeta com um grau e meio a mais de temperatura, disse ele, é como um paciente com febrícula persistente: um sinal pequeno que indica doença profunda. E a floresta funciona como o antitérmico desse paciente.
“A Amazônia é o paracetamol do mundo. Ela cuida da saúde do planeta. Quem cuida da saúde da Amazônia são os povos da floresta. E aí, quem cuida da saúde desses povos?”
A pesquisa ajuda a dimensionar o cenário. Estudo publicado na Nature mostra que, entre 2000 e 2022, a Amazônia brasileira registrou 4.792 eventos climáticos extremos, afetando cerca de 1,8 milhão de pessoas por ano. Na comparação entre 2000–2005 e 2018–2022, a frequência dos eventos de fogo aumentou mais de dez vezes, enquanto secas e ondas de calor triplicaram. Comunidades tradicionais e indígenas responderam por 75% das populações mais atingidas.
A saúde que não aparece nos indicadores
Para Izabela Jatene, há uma dimensão dessa crise que não cabe em um indicador de cobertura. Em artigo publicado no The Conversation, ela e outros pesquisadores discutem como as alterações no regime climático afetam referências construídas ao longo de gerações, a ponto de anciãos indígenas e quilombolas já não conseguirem ler o ambiente como faziam ancestralmente.
No encontro, ela traduziu esse achado em duas cenas. A de uma liderança indígena para quem a tristeza que se abateu em 2024 foi tão grande que ele não tinha força para sair da rede — e não sabia nomear o que vivia. E a de um agricultor que resumiu sua condição em uma frase: “Hoje eu vivo com constante medo.”
“E a ansiedade que isso gera nessas pessoas”, disse Izabela, “é algo para o qual a gente não tem rede de atendimento.”
Os mais afetados, observou, são mulheres, crianças e as próprias lideranças, que se veem em um lugar de pouca força para agir. Daí seu apelo mais direto, que é também um recado à comunicação: ecoansiedade e luto ecológico não podem permanecer como jargão trocado entre pesquisadores.
“A gente precisa deixar visível a dor dessas pessoas. Mas, mais do que a dor, a corresponsabilidade que nós temos diante de uma situação como essa.”
Soluções construídas a partir dos territórios
Uma das principais contribuições do encontro foi mostrar que os territórios não estão apenas apontando problemas. Há soluções já testadas, com capacidade de responder às condições específicas das Amazônias.
O Saúde e Alegria, por exemplo, desenvolve filtros de água de baixo custo e alta eficiência e uma estratégia de fortalecimento da atenção primária por meio das UBS da Floresta.
As unidades combinam energia solar, conectividade, telessaúde, equipamentos de atendimento, estrutura para vacinação e estoque de insumos para períodos de isolamento. O projeto já alcança 24 UBSs em cinco municípios do Pará, com apoio técnico do IEPS e parceria com secretarias municipais e o DSEI.
Na Terra do Meio, purificadores comunitários em escolas e postos de saúde, apoio à produção local e estratégias para preservar a navegabilidade são exemplos de soluções construídas a partir da realidade do território.
O mesmo vale para a segurança alimentar. Fernanda destacou o papel do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que fortalece a produção local, abastece escolas e ajuda a reduzir a dependência de alimentos ultraprocessados. A discussão também apontou a necessidade de pensar mecanismos de proteção para agricultores em situações de crise climática, nos moldes do que o seguro-defeso já garante ao pescador.
No campo da logística, aparecem outras prioridades: unidades fluviais, postos temporários em áreas críticas, manutenção das pistas de pouso comunitárias e estrutura para remoções e transporte de medicamentos e vacinas.
O ponto comum entre essas experiências é que universalizar o acesso não significa replicar um único modelo de infraestrutura. Nas Amazônias, a resposta precisa considerar distâncias, rios, dispersão populacional e diferentes formas de ocupação do território.
Essa lógica não vale apenas para as comunidades ribeirinhas. Em 2023, apenas 29,5% dos domicílios da Amazônia Legal dispunham de saneamento básico adequado, proporção muito inferior à média nacional. Com cerca de 28 milhões de habitantes e taxa de urbanização de 78,4%, as Amazônias são também território urbano e, sem saneamento, um evento extremo se converte rapidamente em emergência sanitária. Floresta e cidade não são realidades apartadas.
É uma abordagem que dialoga diretamente com a Rota 26-30 e sua discussão sobre saneamento urbano: adaptar soluções às especificidades territoriais, com modelos descentralizados e capazes de funcionar onde a infraestrutura convencional não chega. Os filtros e os purificadores comunitários citados no GT são, nesse sentido, saneamento adaptado ao território.
O que precisa mudar na resposta pública
Paulo de Tarso Oliveira apresentou no encontro iniciativas que estão sendo estruturadas para ampliar a capacidade de resposta do SUS, entre elas a descentralização da Força Nacional do SUS, a organização de apoio logístico e o uso de estruturas de saúde adaptadas às especificidades regionais. Mas começou por um reconhecimento honesto.
“É uma constatação tácita de que o poder público sempre vai estar atrasado. A gente tenta empurrar a galera, mas o jogo é duro.”
Feita a ressalva, ele apontou o que considera essencial para atravessar o período crítico: “Água, comida, atenção à saúde e brigadista para apagar fogo no meio da floresta. Se a gente tiver essas quatro coisas, dá para mitigar muita coisa.”
E registrou uma mudança de horizonte que vai além deste episódio: “Essa descentralização da Força Nacional é para sempre. Porque a gente acredita que daqui por diante vai ser assim, sempre.”
O Plano Federal de Preparação e Resposta aos Eventos Climáticos apresentado pelo Ministério trabalha, entre outros pontos, com vigilância, assistência, logística, comunicação de risco e governança.
Mas a discussão do GT evidenciou um gargalo que permanece: a distância entre a existência da política e sua capacidade de chegar ao território. Como resumiu Eugênio:
“Tem diretrizes, tem verba, muito bem estabelecidas. Por outro lado, nós temos aqui o território com um monte de demanda, e a gente não sabe como fazer aquilo chegar aqui.”
Na prática, isso significa que municípios podem não ter capacidade técnica para acessar recursos, estruturar projetos ou garantir logística básica. Na Terra do Meio, por exemplo, existe uma política federal para equipes de Saúde da Família Ribeirinha, mas o município ainda não conseguiu acessá-la.
“É como se esses territórios não fizessem parte do organismo municipal”, disse Fernanda. “Como se eles não contassem com essas distâncias, com esses deslocamentos.”
O problema, portanto, vai além de produzir informação ou criar novas políticas: é preciso integrar informação, financiamento, capacidade institucional e resposta territorial.
Antecipar para cuidar
Fernanda deu o exemplo mais nítido desse descompasso.
Em situações de emergência, o poder público distribui cestas de alimentos às comunidades atingidas. Os monitoramentos meteorológicos existem, o El Niño é anunciado com meses de antecedência e sabe-se historicamente quais áreas sofrem mais nas grandes secas. Ainda assim, segundo ela, é preciso que a ocorrência se concretize para que a distribuição seja autorizada. Muitas vezes, as cestas chegam com meses de defasagem. As destinadas ao período das chuvas acabam entregues já durante a estiagem, quando a necessidade das famílias é outra.
“Então o governo vai estar sempre seis meses atrasado na distribuição das cestas básicas”, disse Fernanda.
O grande desafio é a falta de integração entre a informação e a decisão.
É nesse ponto que a discussão do GT encontra uma agenda mais ampla de fortalecimento do SUS. A Agenda Mais SUS 2027–2030, elaborada pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e pela Umane, apresenta dez propostas para o próximo ciclo de governo. Entre elas, a proposta 7 defende integrar dados de clima, território e saúde na vigilância do SUS, articulando informações que hoje ainda operam de forma fragmentada.
A ideia dialoga diretamente com uma das questões levantadas pelo GT: os territórios já sabem quais comunidades ficam isoladas, quais rotas são comprometidas e quais serviços são mais vulneráveis. Os dados climáticos também permitem antecipar cenários. O desafio é fazer com que essas informações sejam integradas à tomada de decisão.
Para quem vive no Riozinho do Anfrísio, isso pode significar uma diferença concreta: o filtro, o medicamento, a cesta ou o transporte precisam estar disponíveis antes de o rio baixar, e não depois que a emergência já se instalou.
Izabela deixou ainda um alerta prático, que vale para qualquer plano de resposta: “O grande desafio agora é uma comunicação assertiva e que a população consiga acessar. Se eu não tiver rede, o QR Code não vai adiantar.”
Ao encerrar o encontro, a facilitadora Marcela Acioli, gerente de Políticas Públicas no IEPS, reuniu as falas em torno da noção de bem viver — e de como um único dado climático atravessa tantas dimensões da vida — e nomeou o que o GT vem tentando construir: um espaço de facilitação entre o Executivo, as organizações da sociedade civil, as empresas e os territórios. Um lugar onde a diretriz federal e a demanda comunitária consigam, enfim, se encontrar.
O GT de Saúde e Clima reforçou, assim, uma agenda que combina conhecimento técnico e tradicional com capacidade de gestão pública: preparar o SUS para eventos climáticos que já não podem ser tratados como exceções.
As tecnologias existem. As experiências existem. Os dados existem.
O desafio é articulá-los e fazê-los chegar aos territórios a tempo.
O GT de Saúde e Clima é um dos grupos de trabalho de Uma Concertação pela Amazônia, rede multissetorial que reúne mais de 3.000 pessoas e instituições em torno de soluções para a conservação e o desenvolvimento sustentável das Amazônias.