No Quilombo Mel da Pedreira, no Amapá, a criação de abelhas nativas sem ferrão se tornou uma atividade de geração de renda e uma estratégia de recuperação da biodiversidade. Ao valorizar uma espécie presente no território, a comunidade passou a fortalecer também as condições ambientais das quais a própria produção depende.

Na zona rural do município de Macapá e Mazagão, o cerrado amapaense se mistura a áreas de vegetação em regeneração. Entre árvores jovens, estão as caixas de madeira onde vivem as abelhas nativas manejadas pela comunidade.
A atividade começou em 2006, quando a biodiversidade do território já havia sido profundamente afetada. A vegetação nativa havia diminuído e as abelhas que dão nome ao quilombo estavam quase desaparecendo da região. A partir da meliponicultura, a comunidade passou a recuperar áreas degradadas, ampliar o número de colônias e criar uma atividade produtiva associada à conservação do território.
Há duas décadas, esse trabalho vem articulando geração de renda, conhecimento e valorização da biodiversidade. Para Elizeu Cirilo Sousa, filho do patriarca que fundou o quilombo em 1954 e uma das lideranças dessa trajetória, a mudança também transformou a relação da comunidade com o lugar onde vive:
“Aprendemos a cuidar depois que entendemos o valor para nós e para o mundo.”
A experiência do Mel da Pedreira mostra uma dimensão da sociobioeconomia amazônica em que gerar valor a partir da biodiversidade e conservar as condições que a sustentam fazem parte da mesma estratégia territorial.
Quando produzir passa a depender da biodiversidade
Para entender essa trajetória, é preciso voltar a 2006. Naquele período, a área do quilombo havia perdido grande parte da vegetação nativa e das abelhas da região. A savana amapaense, ambiente favorável ao manejo de algumas dessas espécies, também sofria com incêndios recorrentes.
Foi nesse contexto que a comunidade iniciou um projeto de meliponicultura em parceria com o Conselho das Comunidades Afrodescendentes do Amapá – CCADA, Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, e na sequência o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
A atividade criou uma relação direta entre produção e conservação. Para criar abelhas nativas e produzir mel, é necessário garantir alimento e abrigo para as colônias. Isso significa manter árvores, flores e outros elementos da vegetação dos quais as abelhas dependem.
A comunidade passou a recuperar áreas degradadas por meio do plantio e da regeneração da vegetação. As caixas de abelhas foram instaladas no território e o manejo passou a integrar uma estratégia mais ampla de valorização da biodiversidade local.
Diferentemente da apicultura, que utiliza abelhas com ferrão, a meliponicultura trabalha com espécies nativas sem ferrão. No Mel da Pedreira, essa atividade combina conhecimentos construídos pela comunidade com acompanhamento técnico.
O processo é acompanhado pelo biólogo Richardson Ferreira Frazão, socioapidólogo associado ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA), que atua na disseminação da meliponicultura entre comunidades quilombolas do estado.
A experiência mostra que o valor econômico de uma espécie não está apenas no produto que dela se obtém. As abelhas também desempenham funções ecológicas essenciais, especialmente a polinização, conectando a atividade produtiva a outros componentes da biodiversidade.
As abelhas e as relações que sustentam o território
Três espécies de Melipona estão no centro do manejo desenvolvido no quilombo: Melipona compressipes, conhecida localmente como tiúba; Melipona fasciculata; e Melipona fulva.
Todas ocorrem naturalmente em ambientes do Amapá e são manejadas pelas comunidades a partir das características de cada espécie e do território.
Tiúba (Melipona compressipes)
Conhecida também como tiúba rosilha, uruçu cinzenta ou uruçu, ocorre nas florestas e savanas do Amapá. Em melgueiras grandes, a experiência com comunidades quilombolas aponta produção anual de até 7 kg de mel por colmeia.
Melipona fasciculata
Espécie de interesse para o manejo no Amapá, também é cultivada por comunidades do Arquipélago do Bailique, em Macapá. Em colmeias racionais, a estimativa é de ao menos 5 kg de mel ao ano.
Melipona fulva
Ocorre em florestas e savanas do Amapá e, no cerrado, pode ser encontrada nidificando na mameira (Vitex sp.). O ambiente de savana é favorável ao seu manejo, mas também está entre os mais vulneráveis aos incêndios.
A função das abelhas, entretanto, ultrapassa a produção de mel. Ao transportar pólen entre flores, elas participam da reprodução de diferentes espécies vegetais e ajudam a sustentar processos ecológicos dos quais outras atividades produtivas também dependem.
Pesquisas sobre polinização por abelhas nativas na Amazônia apontam, inclusive, impactos sobre a produtividade de culturas como o açaí. Segundo a Embrapa, as abelhas manejadas contribuem para aumentar em 30% o número total de visitas ao açaí. Um estudo anterior indica que a diversidade de insetos polinizadores pode responder por um acréscimo de até 25% na produção de frutos de açaí por planta. Nesse sentido, a meliponicultura evidencia uma característica importante da sociobiodiversidade: um mesmo elemento do território pode gerar valor econômico e, ao mesmo tempo, desempenhar funções ecológicas fundamentais.
Conhecimento local, renda e protagonismo das mulheres

A recuperação da biodiversidade veio acompanhada da organização de uma atividade econômica comunitária.
A produção é organizada pela Cooperativa Quilombo Alimento, responsável pela gestão dos recursos e pelo escoamento do mel, comercializado com a marca Mel do Quilombo, da associação local, Associação de Moradores Remanescentes de Quilombolas do Mel da Pedreira (AMORQUIMP).
Atualmente, 25 famílias trabalham diretamente nos meliponários, enquanto o conjunto da atividade reúne 72 produtores, em sua maioria mulheres. Elas participam de diferentes etapas da cadeia, do manejo à colheita.
A produção varia de acordo com as condições climáticas e a ocorrência de incêndios. Em 2025, foram produzidos 4.600 potes de mel, distribuídos pelo Banco do Brasil durante a COP30. A atividade também conta com apoio do programa Rota do Mel, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional – MIDR.
A comunidade já é reconhecida como agroindústria pela DIAGRO (Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária do Estado do Amapá) e possui selo SIE-AP (Serviço de Inspeção Estadual do Amapá), que permite a comercialização dos produtos em todo o território do estado. A obtenção do Selo de Inspeção Federal (SIF) é um dos próximos passos para ampliar as possibilidades de comercialização.
A atividade produtiva convive ainda com outras dimensões da identidade do quilombo. Majoritariamente evangélica, a comunidade mantém referências da cultura negra, entre elas a tradição dos tambores.
De uma comunidade a uma rede territorial
O alcance da experiência não se limita ao Mel da Pedreira. A comunidade funciona como uma referência para uma rede formada por 15 comunidades quilombolas produtoras de mel no Amapá, que reúnem cerca de 3 mil colmeias.
Essa articulação amplia a capacidade de troca de conhecimentos, organização produtiva e acesso a mercados. O que começou como uma experiência localizada passou a integrar uma rede territorial de comunidades que trabalham com a mesma atividade e enfrentam desafios semelhantes.
A história do quilombo também se conecta a outras dimensões da qualidade de vida. Titulada em 2007, a comunidade é atendida pelo Sanear Amazônia, programa apoiado pelo Conselho Nacional de Saneamento (CONSANE) que utiliza tecnologias sociais para ampliar o acesso à água potável e ao saneamento em territórios de populações tradicionais.
A experiência evidencia que as condições para gerar prosperidade nos territórios não dependem de uma única atividade. Educação, infraestrutura, organização comunitária, acesso a mercados, biodiversidade e qualidade de vida precisam ser consideradas de forma articulada.
Agregar valor à biodiversidade

O próximo passo planejado pela comunidade são as atividades da recém-inaugurada bioindústria para beneficiamento do mel, ampliando a capacidade de processamento e agregação de valor à produção.
Também estão previstos novos produtos, entre eles o Bionéctar Juice, além da busca pelo SIF e da ampliação dos mercados.
Essas iniciativas apontam para uma questão central da sociobioeconomia amazônica: produzir a partir da biodiversidade exige condições para que conhecimento, processamento, renda e valor permaneçam nos territórios.
No Mel da Pedreira, essa construção parte de uma atividade diretamente relacionada à biodiversidade local e envolve organização comunitária, conhecimento técnico, recuperação ambiental e busca por novos mercados.
Biodiversidade como vetor de prosperidade
A experiência do Quilombo Mel da Pedreira dialoga com uma das mensagens centrais da Rota 26–30: a biodiversidade das Amazônias pode contribuir para a diversificação econômica do Brasil quando conhecimento, inovação, instrumentos financeiros, mercados e capacidades territoriais são articulados à conservação e ao uso sustentável.
O caso também mostra que esse potencial não precisa ser construído a partir de soluções externas aos territórios. A comunidade identificou uma atividade associada às espécies nativas presentes em seu entorno, organizou uma cadeia produtiva e passou a investir na recuperação das condições ecológicas necessárias para mantê-la.
A experiência não elimina os desafios. Incêndios, logística, necessidade de infraestrutura e acesso a certificações ainda limitam a expansão da atividade. Mas mostra uma possibilidade concreta: quando a biodiversidade é reconhecida como patrimônio ecológico e econômico, conservar seus ciclos e relações pode fazer parte da própria estratégia de geração de renda e fortalecimento territorial.
No Mel da Pedreira, as abelhas são fonte de mel, renda e conhecimento. Elas também ajudam a revelar a complexidade de um território em que biodiversidade e vida comunitária estão profundamente conectadas.
Meliponicultura em números | Mel da Pedreira
- 20 anos de manejo de abelhas nativas
- 3 espécies de Melipona manejadas
- 72 produtores, a maioria mulheres
- 25 famílias trabalham diretamente nos meliponários
- 4.600 potes de mel produzidos em 2025
- 15 comunidades quilombolas produtoras de mel no Amapá
- Cerca de 3 mil colmeias na rede territorial
- 2007: ano da titulação da comunidade como quilombola

Reportagem realizada em agosto de 2026 durante o 3º Encontro da Rede Conexão Povos da Floresta.