“Imaginário, concreto e possibilidades: Um encontro para revisitar o passado, Pensar o presente E compor um futuro”

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O futuro é construído no presente, a partir daquilo que alimentamos em nosso imaginário. Por isso, a necessidade de vivificar nossa consciência sobre a Amazônia é urgente.

O tema da 4ª plenária de 2021 da iniciativa Uma Concertação pela Amazônia, realizada virtualmente em 17 de maio, foi “Imaginário, concreto e possibilidades: um encontro para revisitar o passado, pensar o presente e compor um futuro”.

Abrindo o evento e conectando a forma como construímos nosso imaginário com o modo como olhamos e valorizamos nosso passado, Lilian Schwarcz apresentou a Enciclopédia Negra. A obra, recém-lançada pela Companhia das Letras, busca promover o reencontro do Brasil com a memória de mais de 500 pessoas negras silenciadas, muitas delas na região amazônica. Além da historiadora e antropóloga, o projeto tem autoria de Flávio dos Santos Gomes, historiador especialista em quilombos, e Jaime Lauriano, intelectual e artista.

Foram sete anos de investigação dos autores sobre a história de 550 personagens que não aparecem nos registros históricos oficiais. São ativistas, revolucionários, lideranças religiosas, curandeiras, comerciantes e mães que lutaram pela alforria de suas famílias que tiveram seus feitos e narrativas silenciadas.

Para dar rosto e forma a esses personagens, o projeto convidou 36 artistas negras e negros, que produziram 103 telas posteriormente doadas para a Pinacoteca de São Paulo. O conjunto virou uma exposição – com o mesmo nome do livro – e que fica em cartaz até novembro de 2021. Para além da exposição, as obras passam a fazer parte do acervo de retratos da Pinacoteca, o que significa um aumento no número de obras de artistas negros no museu, que passaram de 26 para 129 obras. O reconhecimento de heróis e artistas negros do passado e do presente.

Por falar em reconhecimento, a fotógrafa Marcela Bonfim, segunda convidada da plenária, narrou sua história e apresentou o projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra – Povos, costumes e influências negras na floresta. 

Natural de Jaú, no interior de São Paulo, ela se formou em economia pela PUC-SP em 2008. Foi para a capital paulista após a formatura, em busca de emprego, mas nunca conseguiu ser a escolhida na reta final, apesar de sempre avançar bem nos processos seletivos. Desconfiava do motivo, só foi se reconhecer como mulher negra – com suas dores e possibilidades – quando foi para Porto Velho, Rondônia, em busca de novas oportunidades profissionais.

Ao andar pelas ruas da cidade começou a lidar com um constante questionamento: seria ela uma barbadiana? Não sabia nem o que isso significava. Descobriu que na região, no início do século passado, houve um intenso fluxo migratório de pessoas das Ilhas de Barbados, no Caribe. Pessoas negras que foram trabalhar na ferrovia Madeira-Mamoré, um símbolo de poder na época e que acabou moldando, de certa forma, o jeito que a cidade as via e acolhia. Os descendentes, até hoje carregam essa imagem, de pessoas autônomas, com hábitos herdados da colonização inglesa e grande habilidade musical.

“Eles não deixam de sofrer o racismo, mas são corpos dentro de um entendimento de poder: tocavam instrumentos, trouxeram o soul e o jazz, construíram uma rede de educação, de forma que modificaram o espaço”.

A identificação com o povo de Barbados acabou a levando para a fotografia, onde pode refinar seu olhar sobre a negritude e, finalmente, a se reconectar com seus antepassados.

“A fotografia me mostrou a importância de dignificar todos os corpos que aqui estão. A Amazônia é indígena, claro, mas a arte é instrumento de educação e ferramenta para redescobrir a cara e a história dessas pessoas”. 

Sua mostra circulou por 13 estados brasileiros desde 2016 e pode ser vista no site https://www.amazonianegra.com.br/.

Quando resgatamos o passado e ressignificamos o presente, podemos finalmente reimaginar o futuro, tornando-o mais plural e desejável. Durante a plenária, as pessoas participantes puderam conhecer também o projeto Amazônia 2030, com a participação de Juliano Assunção, Diretor Executivo do CPI Brasil e Professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Juliano contou que a iniciativa apresenta a perspectiva de se reconhecer e se reconectar com a Amazônia a partir de seu potencial e tem como objetivo gerar dados e conhecimento para embasar um plano de ações para a Amazônia brasileira, para que a região tenha condições de alcançar outro patamar de desenvolvimento econômico e humano e de uso sustentável dos recursos até o fim da década.

O Amazônia 2030 é fruto da união de pesquisadores brasileiros e organizações como o Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos com sede em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio. O projeto prevê três anos de pesquisa (2020 a 2022) e a publicação de dez trabalhos, que ao final do processo vão compor um diagnóstico e plano de ação que serão apresentados aos tomadores de decisão.

Os três primeiros trabalhos concluídos mostram que a região, em grande medida, sofre um modelo de ocupação artificial, longe das vantagens comparativas naturais associadas à floresta e longe de prover oportunidades de emprego e renda para as populações locais. Isso fica evidente no estudo Mercado de trabalho na Amazônia legal – Uma análise comparativa com o restante do Brasil, realizado pelos pesquisadores da PUC-Rio Flávia Alfenas, Francisco Cavalcanti e Gustavo Gonzaga. A partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do IBGE, que visita 36 mil domicílios na Amazônia Legal a cada trimestre, os pesquisadores analisaram o mercado de trabalho entre 2012 e 2020 e constataram uma realidade pouco dinâmica, com baixo desempenho, alta informalidade e grande dependência estatal.

Há muito ainda a se fazer. A Amazônia ainda é um imenso arrabalde e a tarefa do Brasil é transformá-la em casa, em lar”. Esse foi o grande recado do documentarista João Moreira Salles, um dos convidados na plenária. Numa série de reportagens para a revista Piauí – da qual Salles é fundador – ele narra histórias de como a maior floresta tropical do mundo vem sendo percebida pelas pessoas que se relacionam com ela, desde o século XVI.

O título da série – Arrabalde – veio durante os seis meses que Salles passou no Pará e resume parte das contradições amazônicas: no dicionário, arrabalde é “parte de uma cidade ou povoação que fica fora ou nas adjacências de seus limites; subúrbio; lugar muito afastado do centro; arredor, cercania”.

Para grande parte dos brasileiros, a Amazônia é longe, é o arrabalde. Mas é arrabalde também para pessoas que vivem lá, especialmente nas áreas urbanas, onde a conexão com a floresta é quase inexistente. O resgate da memória de todos os povos que habitam a Amazônia faz parte da (re)construção desse novo imaginário para a região. Além das populações indígenas e ribeirinhas, é fundamental devolver o protagonismo do povo negro que habita a Amazônia desde o século XVI e padece de grande invisibilidade.

Conter a destruição passa por enfrentar também esse desafio de natureza simbólica e cultural: incorporar a Amazônia à nossa ideia de nação, de brasilidade – mas na ação, não apenas no discurso para estrangeiro ver.

O futuro é construído no presente, a partir daquilo que alimentamos em nosso imaginário. Por isso, a necessidade de amazonificar, verdadeiramente, nosso imaginário da floresta é urgente.

Para Guilherme Leal, conselheiro do Instituto Arapyaú, o momento é delicado e desafiador, devido às enormes ameaças que a Amazônia enfrenta no presente. Por isso, a prioridade é a contenção de danos. Entretanto, é momento também de formação de uma nova mentalidade e de um novo jeito de ver a floresta – enxergando-a como um “lugar de felicidade, um encontro consigo mesmo, de dignificação”. Assim como fez Marcela Bonfim que fez do encontro com a floresta um encontro com a própria vida e suas raízes.

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