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Pan-Amazônia – Entre o Céu e a Terra

06/14/2021

O futuro da Amazônia para além das fronteiras entre os oito países que compõem o bioma: Brasil, Guiana, Suriname, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.

A 5ª plenária do ano de Uma Concertação pela Amazônia aconteceu no dia 14 de junho. Com o tema “Pan-Amazônia – Entre o Céu e a Terra”, a 5ª plenária da Uma Concertação pela Amazônia ocorreu em junho, o objetivo foi promover um diálogo sobre os desafios, oportunidades e interações existentes na Pan-Amazônia. A sessão contou com convidados com o cineasta brasileiro, Eryk Rocha; a atriz, pesquisadora e diretora de cinema, Gabriela Cunha;  o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE),  Jean-Pierre Ometto; o pesquisador do Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia, René Beuchle; o representante da Convervation Internatitonal (CI), Cândido Pastor; a secretária-geral da Secretaria Permanente da

Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (SP/OTCA), Alexandra Moreira López; e o coordenador da Divisão de Desenvolvimento Sustentável da CEPAL, em Santiago, José Javier Gomez.

“Todos vocês, brancos, que vivem em todos os lugares: venham… se aproximem para me escutar. Todos vocês hoje estão com medo! Essa fumaça da epidemia apareceu. Vocês morreram. Então, agora, entenderam meu pensamento. E o pensamento de vocês, expandiu?” 

Após a exibição de trechos do filme A Queda do Céu na abertura da plenária, as palavras do xamã Davi Kopenawa Yanomami ficam a ecoar, como se esperassem nossas respostas.  A cineasta e codiretora do longa, Gabriela Cunha afirma que o pensamento de Kopenawa é como uma força geopolítica contemporânea que busca por saídas para Amazônia e para nós mesmos. Ela conta que a produção é sim uma resposta ao chamado do próprio Davi Kopenawa. O filme baseia-se em livro homônimo, escrito em coautoria pelo líder Yanomami e pelo antropólogo francês Bruce Albert. No livro, ele pede que suas palavras sejam levadas o mais longe possível, para que os brancos possam ouvi-las. 

Gabriela diz que quando ela e Erik Rocha – codiretor do filme – leram A Queda do Céu, em 2017, imediatamente perceberam que poderia se tornar filme, porque o pensamento do Davi é todo em imagens e som. Para a dupla, foi um verdadeiro encontro do cinema que faziam com o cinema Yanomami.  O livro, nas palavras dos diretores, é um diagnóstico e aviso sobre um modo de proceder que precisa chegar ao fim. E também como um convite para outro modo possível, que já está aí e que esses povos estão clamando há muitos anos.

O encontro dos dois cinemas também é refletido na formação da equipe, composta por profissionais indígenas e não-indígenas. Dentre os indígenas estão dois fotógrafos e vários integrantes da produção, além do próprio Davi Kopenawa, que assina o roteiro. No momento, os cineastas estão estudando as 130 horas de material captado para editá-lo, fazendo traduções e tentando viabilizar financeiramente a finalização da obra e o lançamento.

Jean-Pierre Ometto, pesquisador do INPE no Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), durante a sua fala, fez uma série de questionamentos, entre os quais, o legado que deixaremos às futuras gerações.

“Que trajetórias permitirão perpetuar um legado tão rico e bem cuidado como o que recebemos das comunidades tradicionais amazônicas?”

A resposta está, segundo ele, na composição de todos os conhecimentos – os das comunidades tradicionais originárias e os da ciência contemporânea. A busca por novas soluções precisa partir dessa base, na qual o conhecimento só se torna um saber ao ser compartilhado.

A Floresta Amazônica já perdeu 20% de sua área original desde a década de 1970. Essa foi a má notícia trazida por René Beuchle em sua fala. Segundo o pesquisador, o dado integra o estudo publicado este ano pelo Joint Research Centre (JRC), órgão de pesquisa científica que produz informações para embasar as políticas formuladas pela Comissão Europeia, apresentado por ele em Ispra, na Itália. A pesquisa mostra ainda que, após atingir taxas anuais de desmatamento muito altas, a Amazônia Legal Brasileira chegou a conter a devastação de meados dos anos 2000 em diante. No entanto, de 2012 para cá, foi reportado um aumento progressivo e sistemático nas áreas de desmatamento anual na região. O aumento também foi expressivo na Pan-Amazônia. A área anual de distúrbios florestais, que considera desmatamento e degradação florestal juntos (quando há desmatamento ocorre uma degradação das florestas no entorno, o que nem sempre aparece em imagens de satélite), aumentou 18% na região de 2019 a 2020, de 26.605 km2 para 31.418 km2.

O gerente técnico da Conservação Internacional (CI), na Bolívia, Cándido Pastor afirma que os povos indígenas são parte importante da solução para os desafios de conservação da Pan-Amazônia. No entanto, não criamos mecanismos para conectar as comunidades desses povos aos fundos e nem as capacitamos na administração e gestão de recursos. Nos últimos anos, apenas 5% do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) chegou às comunidades dos povos indígenas do Brasil, da Colômbia e do Peru.

Ainda dentro do tema, construir pontes entre os países da região é o caminho para a conservação e o futuro sustentável da floresta, de acordo com Alexandra Moreira López, secretária-geral da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e ex-ministra do Meio Ambiente da Bolívia. Pra ela, o Tratado de Cooperação Amazônica, assinado em 1978 pelos oito países, é ainda um instrumento atual, que deve ser usado para promover o desenvolvimento harmonioso da Pan-Amazônia. 

A secretária acredita que a formulação das políticas de gestão dos recursos naturais não devem se restringir a abordagens setoriais. Porque políticas isoladas não são suficientes para responder às complexas inter-relações que naturalmente existem entre recursos naturais e desenvolvimento econômico. Ela acredita que é papel da OTCA assumir o desafio de criar uma convergência entre os oito países responsáveis pela maior e mais importante bacia hidrográfica do mudo, para que eles se unam em torno da criação de uma política comum de gestão dos recursos hídricos da floresta. José Javier Gomez, coordenador da Divisão de Desenvolvimento Sustentável da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em Santiago, no Chile, também abraça o desafio de trazer todas as pessoas para a mesa, a fim de compreenderem juntas qual futuro desejam para a Amazônia.

“Nos vários fóruns que realizamos para fazer essa avaliação, a primeira lição aprendida foi que ninguém tem a mesma ideia e nem sequer uma ideia muito clara do que quer exatamente para a Amazônia no longo prazo”.

Ao fim da plenária, continua a ecoar o chamado de Davi Kopenawa. Precisamos nos aproximar para escutar.

Para saber mais detalhes do evento, leia o artigo desenvolvido pela Página 22.

Detalhes

Data:
06/14/2021
Categoria de Evento:
Website:
https://pagina22.com.br/2021/07/14/natureza-sem-fronteiras/
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Pan-Amazônia – Entre o Céu e a Terra

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O futuro da Amazônia para além das fronteiras entre os oito países que compõem o bioma: Brasil, Guiana, Suriname, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.

A 5ª plenária do ano de Uma Concertação pela Amazônia aconteceu no dia 14 de junho. Com o tema “Pan-Amazônia – Entre o Céu e a Terra”, a 5ª plenária da Uma Concertação pela Amazônia ocorreu em junho, o objetivo foi promover um diálogo sobre os desafios, oportunidades e interações existentes na Pan-Amazônia. A sessão contou com convidados com o cineasta brasileiro, Eryk Rocha; a atriz, pesquisadora e diretora de cinema, Gabriela Cunha;  o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE),  Jean-Pierre Ometto; o pesquisador do Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia, René Beuchle; o representante da Convervation Internatitonal (CI), Cândido Pastor; a secretária-geral da Secretaria Permanente da

Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (SP/OTCA), Alexandra Moreira López; e o coordenador da Divisão de Desenvolvimento Sustentável da CEPAL, em Santiago, José Javier Gomez.

“Todos vocês, brancos, que vivem em todos os lugares: venham… se aproximem para me escutar. Todos vocês hoje estão com medo! Essa fumaça da epidemia apareceu. Vocês morreram. Então, agora, entenderam meu pensamento. E o pensamento de vocês, expandiu?” 

Após a exibição de trechos do filme A Queda do Céu na abertura da plenária, as palavras do xamã Davi Kopenawa Yanomami ficam a ecoar, como se esperassem nossas respostas.  A cineasta e codiretora do longa, Gabriela Cunha afirma que o pensamento de Kopenawa é como uma força geopolítica contemporânea que busca por saídas para Amazônia e para nós mesmos. Ela conta que a produção é sim uma resposta ao chamado do próprio Davi Kopenawa. O filme baseia-se em livro homônimo, escrito em coautoria pelo líder Yanomami e pelo antropólogo francês Bruce Albert. No livro, ele pede que suas palavras sejam levadas o mais longe possível, para que os brancos possam ouvi-las. 

Gabriela diz que quando ela e Erik Rocha – codiretor do filme – leram A Queda do Céu, em 2017, imediatamente perceberam que poderia se tornar filme, porque o pensamento do Davi é todo em imagens e som. Para a dupla, foi um verdadeiro encontro do cinema que faziam com o cinema Yanomami.  O livro, nas palavras dos diretores, é um diagnóstico e aviso sobre um modo de proceder que precisa chegar ao fim. E também como um convite para outro modo possível, que já está aí e que esses povos estão clamando há muitos anos.

O encontro dos dois cinemas também é refletido na formação da equipe, composta por profissionais indígenas e não-indígenas. Dentre os indígenas estão dois fotógrafos e vários integrantes da produção, além do próprio Davi Kopenawa, que assina o roteiro. No momento, os cineastas estão estudando as 130 horas de material captado para editá-lo, fazendo traduções e tentando viabilizar financeiramente a finalização da obra e o lançamento.

Jean-Pierre Ometto, pesquisador do INPE no Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), durante a sua fala, fez uma série de questionamentos, entre os quais, o legado que deixaremos às futuras gerações.

“Que trajetórias permitirão perpetuar um legado tão rico e bem cuidado como o que recebemos das comunidades tradicionais amazônicas?”

A resposta está, segundo ele, na composição de todos os conhecimentos – os das comunidades tradicionais originárias e os da ciência contemporânea. A busca por novas soluções precisa partir dessa base, na qual o conhecimento só se torna um saber ao ser compartilhado.

A Floresta Amazônica já perdeu 20% de sua área original desde a década de 1970. Essa foi a má notícia trazida por René Beuchle em sua fala. Segundo o pesquisador, o dado integra o estudo publicado este ano pelo Joint Research Centre (JRC), órgão de pesquisa científica que produz informações para embasar as políticas formuladas pela Comissão Europeia, apresentado por ele em Ispra, na Itália. A pesquisa mostra ainda que, após atingir taxas anuais de desmatamento muito altas, a Amazônia Legal Brasileira chegou a conter a devastação de meados dos anos 2000 em diante. No entanto, de 2012 para cá, foi reportado um aumento progressivo e sistemático nas áreas de desmatamento anual na região. O aumento também foi expressivo na Pan-Amazônia. A área anual de distúrbios florestais, que considera desmatamento e degradação florestal juntos (quando há desmatamento ocorre uma degradação das florestas no entorno, o que nem sempre aparece em imagens de satélite), aumentou 18% na região de 2019 a 2020, de 26.605 km2 para 31.418 km2.

O gerente técnico da Conservação Internacional (CI), na Bolívia, Cándido Pastor afirma que os povos indígenas são parte importante da solução para os desafios de conservação da Pan-Amazônia. No entanto, não criamos mecanismos para conectar as comunidades desses povos aos fundos e nem as capacitamos na administração e gestão de recursos. Nos últimos anos, apenas 5% do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) chegou às comunidades dos povos indígenas do Brasil, da Colômbia e do Peru.

Ainda dentro do tema, construir pontes entre os países da região é o caminho para a conservação e o futuro sustentável da floresta, de acordo com Alexandra Moreira López, secretária-geral da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e ex-ministra do Meio Ambiente da Bolívia. Pra ela, o Tratado de Cooperação Amazônica, assinado em 1978 pelos oito países, é ainda um instrumento atual, que deve ser usado para promover o desenvolvimento harmonioso da Pan-Amazônia. 

A secretária acredita que a formulação das políticas de gestão dos recursos naturais não devem se restringir a abordagens setoriais. Porque políticas isoladas não são suficientes para responder às complexas inter-relações que naturalmente existem entre recursos naturais e desenvolvimento econômico. Ela acredita que é papel da OTCA assumir o desafio de criar uma convergência entre os oito países responsáveis pela maior e mais importante bacia hidrográfica do mudo, para que eles se unam em torno da criação de uma política comum de gestão dos recursos hídricos da floresta. José Javier Gomez, coordenador da Divisão de Desenvolvimento Sustentável da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em Santiago, no Chile, também abraça o desafio de trazer todas as pessoas para a mesa, a fim de compreenderem juntas qual futuro desejam para a Amazônia.

“Nos vários fóruns que realizamos para fazer essa avaliação, a primeira lição aprendida foi que ninguém tem a mesma ideia e nem sequer uma ideia muito clara do que quer exatamente para a Amazônia no longo prazo”.

Ao fim da plenária, continua a ecoar o chamado de Davi Kopenawa. Precisamos nos aproximar para escutar.

Para saber mais detalhes do evento, leia o artigo desenvolvido pela Página 22.

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Data:
06/14/2021
Categoria de Evento:
Website:
https://pagina22.com.br/2021/07/14/natureza-sem-fronteiras/