Sarah Campelo faz da periferia amazônica espaço de arte e afirmação política

Inspirada pela vida na periferia de Manaus, a artista constrói imagens que aproximam arte, comunidade e os desafios da infraestrutura urbana na Amazônia

Na comunidade periférica de Mossoró, na zona sul de Manaus (AM), o fenômeno recorrente das inundações e alagamentos tem seus efeitos ampliados pela ausência de saneamento que marca a vida das pessoas. 

Ali, quando chove um pouco mais forte, a água rapidamente toma os becos, cobre as ruas e entra nas casas. “Em muitos casos, os moradores passam horas tentando proteger móveis, eletrodomésticos e a própria residência. Hoje, para muita gente, a chuva passou a ser ainda mais motivo de preocupação constante”, relata a artista, ativista e moradora da região, Sarah Campelo.

É a partir dessa realidade, na qual nasceu e cresceu, que Sarah molda seu olhar sobre arte, cidade e as Amazônias. A produção que daí emerge afirma a existência de um território atravessado por desigualdades, mas também repleto de cultura, imaginação e potência criativa.

Utilizando-se do acrílico sobre tela, da fotografia e de experimentações digitais, a artista expande sua prática para intervenções urbanas e também coordena a produção de murais. Seu trabalho parte da observação atenta do entorno, resultando em cenários que atravessam imaginação e experiência e articulam pintura, cor e composição para deslocar o que é visto para o que permanece no universo das possibilidades. 

Sarah falou à Concertação sobre sua obra, a experiência de viver em uma cidade amazônica e, em particular, sobre a periferia como espaço formador.

Amazônia urbana: uma realidade invisível que reivindica seu lugar 

“A fome foi inventada” (2024), acrílico sobre tela e intervenção digital

Vistas de longe em imagens de satélite, discursos globais ou campanhas institucionais, as Amazônias costumam ser reduzidas à floresta. De fora, a região é sinônimo apenas de paisagens compostas por matas, rios e biodiversidade, quase sempre desabitadas. É em oposição a esse enquadramento que Sarah realiza seu trabalho.

A obra “A fome foi inventada” é um exemplo dessa reafirmação. Longe dos ambientes verdes a que a imaginação sobre as Amazônias costuma ser reduzida, a artista retrata o cotidiano das comunidades periféricas, com suas casas, comércios e crianças em convívio. A presença da frase de Carolina Maria de Jesus, “a fome foi inventada pelos que comem”, porém, desloca a atenção e introduz uma dimensão crítica de reflexão sobre desigualdade e estrutura social.

Amazônias contadas em primeira pessoa

Mas, Sarah vai além da crítica social: ela torna o território – e quem vive nele – protagonista. Para ela, o que está em jogo é a forma como ele é percebido e, consequentemente, pensado. Ao contar a Amazônia em primeira pessoa, ela rompe com a lógica que transforma a região em objeto de observação externa, frequentemente desconectada das pessoas que ali habitam. E nesse gesto, sua produção artística se realiza também como prática política.

“Onde possamos sonhar” (2026), acrílico sobre tela e intervenção sobre fotografia

Em “Onde possamos sonhar”, a artista trabalha com a justaposição de universos. A obra mostra dois meninos diante do Teatro Amazonas, em uma imagem que se sobrepõe ao contexto da periferia, criando um contraste entre o cartão-postal e a cidade vivida. A operação revela a desigualdade socioespacial e evidencia a distância entre as narrativas dominantes sobre a Amazônia e seus moradores.

O papel da linguagem visual para a compreensão das múltiplas (e alternativas) realidades amazônicas 

A artista acredita que não é apenas por falta de informação que a realidade da Amazônia urbana permanece à margem das narrativas dominantes, mas também por um limite de imaginação. “Aquilo que a gente não vê ou não consegue imaginar dificilmente se torna prioridade”, afirma. 

Nesse sentido, a linguagem visual se torna uma maneira de ampliar o debate. Suas obras reconfiguram paisagens e sugerem alternativas de existência para os mesmos espaços. Em muitas delas, a comunidade aparece mais segura, viva e colorida, não como negação da realidade, mas sim como esperança.

Essa escolha não é por acaso. Suas obras não se limitam ao registro realista, ampliando os limites do que se espera ver. A arte, nesse contexto, funciona como uma linguagem capaz de sugerir cenários alternativos, abrindo caminho para que novas narrativas possam emergir.

“Um rio para sonhar” (2023), fotografia com intervenção digital

A obra “Um rio para sonhar” é um exemplo dessa perspectiva. A artista parte de uma fotografia para construir uma paisagem que se aproxima do universo da imaginação. A imagem dialoga diretamente com a experiência da comunidade, na qual o igarapé, hoje degradado, já foi um local de convivência, lazer e subsistência. “A gente vive falando de como seria esse rio limpo”, comenta Sarah. A imagem projeta uma possibilidade.

A ausência de saneamento urbano como pauta política e artística     

Se a imaginação define prioridades, é no cotidiano que os efeitos da invisibilidade se tornam mais evidentes. Em Mossoró, a precariedade da infraestrutura de saneamento é uma experiência constante que atravessa corpos, casas e relações. Sarah conta que “o igarapé, que é praticamente um lixão a céu aberto, inunda as casas com água contaminada por fezes, ratos e lixo durante as chuvas, causando doenças, perda de pertences, interrupção de atividades e lazer”.

Trata-se de uma condição que afeta diretamente a saúde, a mobilidade e a permanência das pessoas na comunidade. As enchentes interrompem rotinas, desorganizam o trabalho e impactam fortemente quem já vive em situação de vulnerabilidade. “Essa questão da infraestrutura, de saneamento básico, tem um lado que não é discutido, que é a saúde mental das pessoas que vivem situações como essas”, completa a artista.

Ela também enxerga a forte conexão dessa dinâmica com os extremos climáticos cada vez mais frequentes na Região Norte, com ciclos intensos de cheia e seca que criam uma instabilidade contínua, redefinem o cotidiano e impõem limites às possibilidades do amanhã e mantém os moradores em estado de ansiedade. “A gente vive a seca com medo da cheia, e vive a cheia com medo da seca. É sempre esperando o pior”.

Um rio para habitar (2025), fotografia com intervenção digital

Nesse contexto, em “Um rio para habitar”, o igarapé volta a ser o foco de uma intervenção que o imagina limpo, reabilitado e em equilíbrio com os modos de vida locais. O contraste entre cores e camadas visuais produz uma tensão entre o presente e o que ainda não existe.

Arte Ocupa: a periferia como lugar de ocupação e criação

É também a partir da realidade de Mossoró que surge o Arte Ocupa, projeto cocriado pela artista a partir de sua percepção sobre a escassez de equipamentos culturais na região e da arte como experiência transformadora. A proposta está ancorada na ideia de transferir a arte dos espaços institucionais para as periferias, ocupando ruas, muros e casas para potencializar seu poder transformador.

Ao realizar ações como criação de murais, exposições em áreas abertas e intervenções itinerantes, a iniciativa amplia o acesso à produção artística e reforça uma noção central no trabalho de Sarah: a periferia não é apenas um cenário, é um ambiente ativo de criação.

Com ações construídas com a comunidade, Sarah faz da arte uma experiência coletiva

Em todos os seus projetos, Sarah desenvolve metodologias que partem da escuta e da construção coletiva com a comunidade para projetar futuros. Ela não segue um formato predefinido, pois entende que o processo importa tanto quanto o resultado: “eu não chego com nada pronto. Eu pergunto como eles querem que seja, o que faz sentido pra eles”. 

Essa escolha altera a lógica tradicional da produção artística. O público deixa de ser passivo e passa a atuar como coautor. Ao compartilhar decisões e processos, a artista amplia a autonomia dos participantes e cria condições para que as iniciativas tenham continuidade para além de sua presença

Em Mossoró, arte e política caminham juntas

A lógica de construção coletiva também orienta a forma como Sarah trabalha temas políticos em seus projetos. Evitando uma abordagem direta ou confrontadora, a artista desenvolve estratégias que aproximam o debate do dia a dia da comunidade. Se for preciso tratar de questões complexas, ela procura traduzir conceitos abstratos em linguagens acessíveis, adaptadas a diferentes públicos.

A artista descreve sua abordagem como uma forma silenciosa de fazer política, que mobiliza referências culturais, religiosas e afetivas e constrói pontes que permitem discutir questões estruturais sem romper os vínculos com as pessoas. Os espaços de diálogo ampliam o alcance do debate político e reforçam o papel da arte como ferramenta de mobilização e transformação social.

A Amazônia não cabe no teu museu (2024)

Em Mossoró, a arte se torna uma forma de elaborar coletivamente os desafios do território e de afirmar outras possibilidades de existência para a periferia amazônica. Ao aproximar debates estruturais da experiência cotidiana da comunidade, Sarah Campelo constrói caminhos de participação e de pertencimento que fortalecem tanto a dimensão política quanto a afetiva de seu trabalho. 

Entre pinturas, murais, intervenções e processos compartilhados, sua obra revela que imaginar futuros mais justos também é uma maneira de começar a construí-los.

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