Fotógrafo paraense com trajetória no fotojornalismo e na fotografia documental, João Ramid registra a culinária amazônica como expressão de cultura e identidade da região
“A comida revela aspectos da cultura que paisagens naturais, por si só, não conseguem captar, servindo como uma porta de entrada para a compreensão da Amazônia”. A frase de João Ramid ajuda a compreender o lugar que a alimentação ocupa em sua obra. No trabalho do fotógrafo paraense, o alimento não é só beleza, composição estética ou provocação do apetite. Ele carrega histórias, modos de fazer, relações com o território e saberes transmitidos de geração em geração.
Transitar por seu acervo é como sentar-se à mesa em uma comunidade ribeirinha ou caminhar por uma feira livre amazônica. Ali, o tempo é marcado pela convivência e a imagem nasce do vínculo com o que está diante da câmera.
João entende que a alimentação tradicional revela muito do conhecimento que os povos amazônidas desenvolveram sobre o ambiente. Antes da comida chegar ao prato, há o trabalho de quem pesca, planta, colhe, prepara e transforma ingredientes, muitas vezes complexos, em “alimentos de conforto” ou “pratos caseiros”. Há também uma sabedoria guardada especialmente pelas mulheres, fundamentais na transmissão dessas práticas.

É essa vida cotidiana, feita de técnica, afeto e identidade, que Ramid busca registrar. Em entrevista à Concertação, o fotógrafo revisitou sua trajetória e explicou por que, em sua visão, as Amazônias precisam ser narradas “de dentro para fora”.
Para ele, fotografar o território exige imersão, escuta e compromisso com as pessoas e os objetos retratados. A câmera, nesse processo, deixa de ser um instrumento de controle da narrativa para se tornar um meio de amplificar vozes, histórias e realidades locais.
A comida como expressão de cultura, território e identidade
Na obra de João, os pratos tradicionais não são tratados como curiosidades regionais ou como imagens exóticas. Eles aparecem integrados ao cotidiano, como parte de modos de vida que respondem a necessidades concretas de sobrevivência, segurança alimentar e continuidade cultural.
Sua fotografia rejeita o olhar estrangeiro ou deslumbrado, que reduz a culinária amazônica a um fetiche visual. Ao mesmo tempo, preserva seu prazer e alegria diante da variedade de sabores, cores e texturas de sua terra.
Sob suas lentes, ingredientes nativos e técnicas culinárias aparecem como expressões de conhecimento, de adaptação ao território e de resistência cultural.
O alimento, nesse sentido, funciona como um espelho da história local. Nele, estão presentes as técnicas de coleta, cultivo, pesca e preparo, herdadas de gerações anteriores e recriadas no cotidiano das cozinhas amazônicas.
Essa valorização dos ingredientes e das receitas locais também embasa sua crítica à substituição de cardápios regionais por produtos ultraprocessados. “A merenda escolar na Amazônia, no interior do Amazonas, do Pará, do Amapá, é bolacha e doce de goiaba que vêm de São Paulo. Sendo que o moleque tem o rio na frente com o peixe, tem o açaí no quintal, tem a macaxeira…”, conta o fotógrafo.

A sedução visual da culinária amazônica
A técnica de João na fotografia de alimentos parte de um princípio aprendido com um chef japonês em São Paulo, que lhe chamou a atenção para a importância de três aspectos da comida: a aparência, que seduz; o aroma, que atrai; e o sabor, que convence.
Como a fotografia não transmite cheiro nem sabor, o artista concentra sua atenção em encantar pela aparência, elemento capaz de despertar o desejo. Em vez de seguir fórmulas prontas, ele se orienta pela própria vontade de provar o alimento. Para encontrar o melhor ângulo e o enquadramento adequado, precisa olhar para o prato e sentir vontade de comê-lo. É esse impulso que guia sua câmera.
Seu trabalho também busca conferir beleza e dignidade a texturas, cores e formas que podem parecer difíceis ou estranhas a quem desconhece a cultura local. Em diálogo com profissionais da cozinha, João usa a luz para destacar a suculência, as camadas e a densidade dos pratos tradicionais, transformando a rusticidade dos alimentos em um convite visual.

Da urgência do fotojornalismo ao tempo da escuta
A sensibilidade dedicada à mesa nasceu de uma mudança decisiva na trajetória do artista. Nascido em Belém (PA) e criado no Rio Grande do Sul, João iniciou sua formação no fotojornalismo. Atuou por 12 anos como fotógrafo especial da revista Veja e, depois, no Jornal do Brasil.
Sua rotina era marcada por viagens constantes e coberturas intensas, como as dos conflitos relacionados ao garimpo, dos movimentos agrários e do processo constituinte em Brasília. Registrou episódios de agressão por forças policiais e militares e foi, até mesmo, vítima de uma tentativa de atropelamento pela segurança do presidente recém-eleito, no final de 1989.
“Eu viajava muito, era fotógrafo especial; eu não parava. Muitas vezes a minha mulher levava uma mala com roupa para mim no aeroporto”, conta. Mas o distanciamento da família e o desgaste imposto pelo jornalismo diário o levaram a retornar definitivamente ao Norte. “Eu resolvi voltar para a Amazônia… Eu precisava voltar”, conta.
Ao se afastar do registro centrado na denúncia e no conflito, João reencontrou referências de sua infância na região do Oiapoque (AP). A criação da sua Agência Amazônia de Comunicação marcou essa mudança de percurso e abriu espaço para uma fotografia mais autoral, voltada ao documental, à gastronomia e aos modos de vida amazônicos.
Desde então, sua câmera passou a buscar não apenas as tensões do território, mas também suas soluções, tecnologias nativas, formas de convivência e sofisticação cultural.
Hoje, o fotógrafo leva essa discussão a exposições e seminários fora do Brasil. Ao apresentar a culinária de raiz como expressão de conhecimento e identidade, contribui para deslocar visões superficiais e estereotipadas sobre as Amazônias.
Sua fotografia mostra que, diante de um prato, há muito mais do que apenas alimento. Há território, memória, trabalho, técnica e cultura. Há também uma forma de olhar para as Amazônias a partir de dentro, com o tempo e a escuta que suas histórias exigem.
