Entre fluxos e conexões: Hadna Abreu traduz a Rota 26-30 em aquarelas

Artista manauara transforma escuta, pesquisa e relações que atravessam as Amazônias em uma linguagem visual construída para acompanhar a Rota 26-30

Transformar em imagem uma agenda que reúne diferentes territórios, conhecimentos e perspectivas sobre as Amazônias foi o desafio assumido pela artista manauara Hadna Abreu ao criar aquarelas para os cinco eixos temáticos da Rota 26-30. Ao longo do processo, ela mobilizou seu repertório para tornar visíveis relações e conexões que nem sempre aparecem nos mapas, indicadores ou propostas.

Essa forma de olhar está ligada à própria trajetória de Hadna. Artista visual, ilustradora, pesquisadora e curadora, formada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), desenvolve trabalhos que aproximam arte, ciência, natureza e tecnologia. Em diferentes técnicas e linguagens, sua pesquisa se volta à observação de organismos, relações e fenômenos que muitas vezes passam despercebidos.

Iniciativa da Concertação, a Rota 26-30 é fruto de um processo coletivo de escuta, com rodadas temáticas com especialistas, consultas aos integrantes da rede, discussões em plenárias e contribuições de diferentes atores. A publicação, prevista para novembro, reúne caminhos e soluções para as Amazônias em cinco eixos: Florestas, Segurança Energética, Saneamento Urbano, Comida e Biodiversidade.

Para acompanhar esse percurso, Hadna criou uma linguagem artística na qual escuta, pesquisa e sensibilidade se encontram. Um trabalho que dialoga com sua trajetória e, ao mesmo tempo, amplia seu campo de investigação. 

Da curiosidade da infância à investigação da floresta

A sensibilidade que orienta o trabalho de Hadna vem de longe, das memórias da infância em Manaus (AM), dos quintais dos avós, das plantas cultivadas pela família e da curiosidade precoce por insetos, folhas e outras pequenas formas de vida. Essas referências familiares foram incorporadas às suas primeiras investigações artísticas e permanecem em sua forma de criar: um interesse pelo detalhe e pelo que pode ser descoberto ao observar algo atentamente.

A identificação pessoal com as Amazônias, no entanto, não foi imediata. Embora tenha nascido e crescido na capital amazonense, Hadna conta que levou algum tempo para estabelecer uma relação artística com a região. Esse vínculo surgiu a partir de viagens ao interior de seu estado e, depois, do contato com pesquisadores e com a investigação científica, especialmente em torno dos fungos amazônicos.

A aproximação com a ciência transformou a maneira como ela observava esses elementos. Aquilo que antes despertava interesse pela forma, pela delicadeza ou pelo sentimento passou a ser investigado também à luz do conhecimento científico. Pesquisas, expedições e projetos, como os desenvolvidos com o Instituto Socioambiental (ISA), contribuíram para ampliar seu repertório sobre a floresta. Entre os principais exemplos está uma publicação sobre os fungos Yanomami, posteriormente reconhecida com o Prêmio Jabuti.

Foi nesse percurso que o detalhe ganhou ainda mais importância em sua obra. Ao observar fungos, insetos, raízes e outras formas de vida, Hadna passou a compreender a floresta para além das grandes paisagens, como um sistema formado por pequenas partes que se conectam e sustentam o todo.

A arte como outra forma de conhecimento

Essas experiências também ajudaram a formar sua compreensão da arte como um modo de conhecer o mundo. Para a artista, observar e perceber também são formas de produzir conhecimento, que não se restringem ao que pode ser lido, escrito, dito ou medido. A experiência, a percepção e o sentir também fazem parte desse processo. “É observar e deixar essa observação ir te levando”, resume.

Anos depois, essa forma de olhar encontraria terreno fértil na relação de Hadna com a Concertação.

Do detalhe da floresta a uma visão ampliada das Amazônias

Desde 2021, Hadna participa de diferentes iniciativas da Concertação. Entre essas colaborações estão as ilustrações da coleção “Propostas para as Amazônias”, a edição especial do jogo Dixit Amazônias, entre outros projetos. A artista também integra o Atlas Cultural das Amazônias, plataforma colaborativa que mapeia e dá visibilidade a artistas, produtores e lideranças culturais da região.

Ao acompanhar as discussões promovidas pela rede ao longo do tempo, Hadna conta que sua própria compreensão das Amazônias se ampliou. Se antes seu olhar se concentrava principalmente na floresta, na biodiversidade e nos elementos que investigava de perto, os debates da Concertação a aproximaram também de temas como infraestrutura, economia e energia, bem como das relações entre essas diferentes dimensões.

“Antes eu usava uma lupa”, explica a pesquisadora. A Concertação, diz, lhe trouxe um “binóculo”, ou seja, a possibilidade de manter o olhar atento ao detalhe sem perder de vista uma perspectiva mais ampla sobre os territórios e os desafios amazônicos.

Escuta e pesquisa orientaram a criação das aquarelas para a Rota 26-30

Hadna começou a desenvolver as aquarelas para os cinco eixos da Rota 26-30 durante as reuniões temáticas da iniciativa. Alguns temas estavam próximos de assuntos que já permeavam sua pesquisa artística. Outros exigiram aprofundamento em universos menos familiares.

No processo, ela fazia anotações, experimentava desenhar certos elementos, buscava referências, lia novos materiais e continuava a pesquisa depois das reuniões. O desafio era traduzir a complexidade dos debates em uma linguagem visual capaz de integrar suas diferentes dimensões, sem recorrer a representações literais.

Água, ar, raízes e micélios tornam visíveis as conexões das Amazônias

O conceito artístico proposto pela Concertação partiu do pressuposto de que inúmeros elementos atravessam os territórios amazônicos sem obedecer a fronteiras rígidas, como a água, o ar e as raízes da vegetação.

A própria técnica da aquarela dialoga com essa ideia. Por ter a água como elemento fundamental, ela permite que as cores se encontrem, avancem umas sobre as outras e produzam novas formas. Esse movimento também funciona como metáfora para a Concertação, na qual diferentes vozes, conhecimentos, experiências e perspectivas se fortalecem ao estabelecerem conexões entre si.

Hadna levou essa premissa à sua linguagem visual. Partiu das cores associadas à identidade da Rota 26-30 e as aproximou dos tons da natureza, incorporando manchas e respingos para criar imagens mais fluidas.

Outro elemento atravessa as diferentes obras: linhas finas que lembram raízes, raios ou ramificações. Para Hadna, elas remetem especialmente aos micélios, redes formadas pelos fungos, uma referência que já fazia parte de sua pesquisa artística.

É deste encontro entre a proposta conceitual da Concertação e o repertório artístico de Hadna que se forma a linguagem da Rota 26-30. As imagens sugerem relações e convidam a perceber o que nem sempre está imediatamente visível.

A aquarela “Ar e Água” ilustra essa ideia. Ela constrói uma imagem menos literal e mais livre, capaz de fazer o observador “viajar” pela composição, que reúne elementos ligados à água, ao clima e à natureza. As cores da identidade visual da Rota 26-30 e da Concertação aparecem mescladas aos tons naturais, e os respingos de aquarela, associados à água e ao movimento. Nas palavras da artista, o objetivo é transmitir sobretudo uma “fluição de ideias”.

Essa mesma linguagem assume novas formas diante de cada um dos cinco eixos temáticos, em que Hadna parte das discussões coletivas para construir imagens em que natureza, pessoas, conhecimento e território aparecem continuamente conectados.

Florestas

Nesta obra, Hadna apresenta a restauração como uma possibilidade de recomposição da floresta degradada. Uma espécie pioneira surge do solo degradado e, pouco a pouco, pássaros, insetos e outros animais ajudam a recompor a vida. Para a artista, esse primeiro movimento abre caminho para o “retorno do coletivo”.

Segurança Energética

Na aquarela sobre segurança energética, a floresta aparece como um território de pesquisa e inovação, de onde surgem lâmpadas cristalinas entre a vegetação e as águas. A obra também evoca alternativas como a geração de energia a partir da biomassa e propõe imaginar soluções capazes de beneficiar cidades e povos indígenas e ribeirinhos.

Saneamento Urbano

A tensão entre cidade e floresta orienta a aquarela sobre saneamento urbano. Hadna representa uma cidade quase suspensa. Na superfície, estão construções, movimento e expansão; abaixo, aparecem o solo, os fluxos de água, rios soterrados, lençóis freáticos e memórias do território. A imagem evidencia urgências como o acesso à água limpa e a recuperação de rios e igarapés, ao mesmo tempo em que convida a imaginar cidades que não se separem da floresta, mas cresçam com ela.

Comida

Para abordar o tema, Hadna parte do pressuposto de que a alimentação reúne territórios, modos de vida, conhecimentos e relações. No centro da aquarela, está uma cestaria Yanomami que abriga açaí, raízes e outras frutas, palafitas, peixes, uma canoa e pessoas. Para a artista, ela representa uma inteligência alimentar que combina ciência, ancestralidade e conhecimento dos ciclos da natureza, presente entre povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares.

Biodiversidade

Na aquarela sobre biodiversidade, Hadna desloca o olhar das grandes paisagens para ressaltar insetos, fungos e pequenos pássaros, seres quase invisíveis que “sustentam silenciosamente a vida”, diz. A composição aproxima raízes e rios de cenas como a de uma mãe banhando o filho e a de um peixe-boi com seu filhote, evidenciando as relações humanas e não humanas na floresta.

A criação das aquarelas também amplia o olhar da artista

Ao transformar os debates da Rota 26-30 em imagens, Hadna também viu sua própria compreensão das Amazônias se transformar. O processo reforçou a necessidade de observar a região de forma integrada, conectando floresta e biodiversidade a pessoas, cidades, infraestrutura, energia, economia e outros elementos que sustentam a vida nos territórios.

A experiência também aponta novos caminhos para sua produção. A artista pretende aproximar ainda mais sua arte das questões sociais e dos desafios vividos nas Amazônias, propondo reflexões, perguntas e possibilidades. Assim, as aquarelas criadas para a Rota não encerram esse percurso: ampliam uma investigação artística que continua atenta tanto aos detalhes quase invisíveis da floresta quanto às relações mais amplas que atravessam a região.

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