O artista amazônida de origem quilombola traz em seus desenhos a riqueza da biodiversidade, das palavras, das memórias, das pessoas e das maneiras de conhecer e habitar a região
Josias Marinho Casadecaba é artista visual, ilustrador, escritor, pesquisador e professor nascido na comunidade quilombola de Forte Príncipe da Beira, às margens do rio Guaporé, em Rondônia. Sua produção constrói narrativas visuais marcadas pela valorização das culturas afro-brasileiras, da memória, da oralidade, das infâncias negras e dos territórios amazônicos.
Ao transitar entre ilustração, literatura infantil e juvenil, pesquisa acadêmica e educação, Josias integra uma geração de artistas que ampliam os imaginários sobre a Amazônia negra, articulando ancestralidade, pertencimento e identidade em criações destinadas a públicos diversos.
Em sua obra, a biodiversidade das Amazônias se manifesta sobretudo nas relações entre águas, fauna, flora, pessoas, palavras e imaginação. A natureza articula modos de vida e formas de conhecimento produzidos por quem vive na região.
Em entrevista à Concertação, Josias revisitou sua relação com o rio Guaporé, a presença negra nas Amazônias, a escolha pelo livro ilustrado e pela pesquisa acadêmica e os caminhos pelos quais transforma experiências e formas de nomear o mundo em linguagem visual.
A região do rio Guaporé em Rondônia é fonte permanente de memória e inspiração
A comunidade de Forte Príncipe da Beira, onde Josias nasceu, está situada junto à fortaleza erguida às margens do rio Guaporé no século XVIII, a partir do trabalho de pessoas negras e indígenas escravizadas. Até hoje, a região é caracterizada pela convivência entre populações quilombolas, indígenas e ribeirinhas.
O laço afetivo do artista com o território onde cresceu fez do rio uma importante fonte de inspiração. Ele é a rota a partir da qual se deslocam tradições, amalgamando as diferentes comunidades e suas culturas.
É do Guaporé que surgem histórias, práticas culturais, palavras e formas de viver que atravessam a produção de Josias, enquanto sua origem quilombola inspira um olhar atento à ancestralidade, à memória compartilhada, à comunidade e às diferentes formas de criar conhecimento. “As nomenclaturas, o jeito de ser e as histórias envolvendo tudo isso acabam virando imagens para mim”, diz.
Suas ilustrações afirmam a presença quilombola na construção dos imaginários sobre o território
A valorização desse patrimônio cultural é um dos principais eixos da produção de Josias. Em sua obra, é frequente a construção de representações positivas, afetivas e complexas de amazônidas negros, especialmente crianças, que brincam, imaginam, descobrem, observam e ocupam o centro das narrativas.
Essa preocupação também abrange as representações sobre as Amazônias. O artista comenta que, com frequência, a região é reduzida à floresta, aos rios ou a um repertório cultural visto de fora, que busca classificar os modos de vida da região somente na categoria de “carência”, sem sociabilidade, sem protagonismo, enquanto a presença histórica de suas populações permanece pouco reconhecida.
Muitas vezes, utilizando apenas um caderno, um lápis e uma caneta nanquim de tinta preta que carrega sempre consigo, Josias desenha recortes do ambiente que contestam esse enquadramento. Assim, ele nos apresenta uma Amazônia vista por dentro, que também é negra, quilombola, ribeirinha, indígena e fronteiriça, formada por sujeitos que constroem, no dia a dia, conhecimentos, linguagens e modos próprios de relação com o território.


Em uma trajetória marcada por deslocamentos, Josias ampliou seu nome para identificar a origem amazônida
Depois de viver a infância e a adolescência em Rondônia, entre Forte Príncipe da Beira, Costa Marques e Guajará-Mirim, Josias mudou-se para Belo Horizonte, Minas Gerais, onde permaneceu por 22 anos. Embora pretendesse estudar Letras, sua facilidade e vivência com o desenho logo o aproximou das artes visuais.
Ao ser notado por produzir retratos com a intenção de complementar a renda, o artista foi incentivado a prestar o vestibular para a Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), uma possibilidade que até então desconhecia.
Formou-se, assim, em Artes Visuais e construiu uma trajetória que também passaria pela História do Brasil, pela Literatura, pela Educação e pela pesquisa sobre o Livro Ilustrado. Ao retornar à Região Norte, no ano de 2016, estabeleceu-se em Boa Vista (RR), onde atualmente é professor de Artes Visuais no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Também assumiu a função de Presidente do Conselho Administrativo e Editorial da Editora da universidade.
Foi ainda durante os anos em Minas Gerais que surgiu o nome artístico Casadecaba. A expressão “casa de caba”, derivada do nheengatu, é usada no Norte para designar a casa de cabas ou de marimbondos. Ao perceber que a formulação não era compreendida fora da região, Josias decidiu adotá-la como marca de pertencimento.
A circulação entre territórios tão diferentes tornou ainda mais consciente o vínculo com a própria origem. “Eu me dei de presente essa criação, que uso como sobrenome artístico, para me vincular ao Norte”, explica. Criei esse vínculo a partir do momento em que estive fora dele”, ressalta.
Casadecaba tornou-se parte da identidade pública de Josias. O nome provoca perguntas e abre espaço para explicar uma palavra regional e o universo cultural do qual faz parte. “Ele funciona muito bem para o discurso, para a bandeira que eu levanto, para o que eu sou e para o que pretendo ser”, conclui.
Para Casadecaba, a riqueza da biodiversidade amazônica está nas relações dos seres vivos entre si e com o ambiente
Josias conta que suas origens também o inspiram a falar sobre a biodiversidade amazônica. A primeira imagem evocada pelo artista em relação ao tema é a do rio Guaporé: um ambiente em movimento, atravessado por diferentes espécies e pela vida das comunidades ao seu redor.
Essa compreensão do território atravessa sua obra, como em “Bateção”, livro inspirado em um fenômeno observado nos rios da Amazônia. Quando pescam, os biguás mergulham em busca de alimento; os peixes saltam em pânico para fora da água e, muitas vezes, caem nas canoas já posicionadas por pescadores para aproveitar o fenômeno. Esse movimento coletivo na superfície da água é chamado de bateção na região do quilombo..
A cena reúne aves, peixes, insetos, floresta, mata, rio e pessoas. No livro, além de ilustrar diferentes espécies, a narrativa visual de Josias mostra como elas se afetam mutuamente. A biodiversidade emerge das interações, dos deslocamentos e dos ritmos compartilhados naquele ambiente.
O cenário também revela um conhecimento que não se produz à distância. Para reconhecer a bateção, é preciso observar a água, compreender o comportamento dos animais, identificar os movimentos do rio e acumular experiências transmitidas de geração em geração.
Na obra de Casadecaba, esses saberes integram a própria construção do território. Natureza e cultura não formam campos separados. As pessoas aprendem com os ciclos naturais, criam palavras para nomear fenômenos e transformam observações em histórias, práticas e, por fim, em memórias.
Sua obra se aproxima, assim, de uma compreensão ampliada da biodiversidade, que relaciona a conservação dos ecossistemas à continuidade dos conhecimentos, das culturas e das formas de vida construídas com eles.

No livro ilustrado, Josias encontra um espaço para organizar essa complexidade
Para ele, a ilustração não é um complemento subordinado ao texto. A imagem produz sentidos próprios, estabelece ritmos, cria silêncios e conduz a leitura por caminhos que apenas a palavra não alcançaria. “Nem o papel nem uma tela única dariam conta da complexidade narrativa ou da marcação de tempo que a gente pode construir no livro”, explica.
A paginação possibilita a articulação de símbolos, cores, mudanças de cena e diferentes camadas temporais. Texto e imagem podem dialogar, divergir ou ampliar um ao outro, uma liberdade importante para uma produção apoiada tanto na observação quanto na memória e na fabulação.
O livro também permite que narrativas transmitidas oralmente encontrem novas formas de continuidade. Histórias familiares, expressões regionais e lembranças da infância passam a circular entre outros públicos e gerações.
Arte, ensino e pesquisa são dimensões inseparáveis de sua vida e obra
Seu trabalho também articula criação artística e educação, conferindo-lhe um papel de “artista-professor”. A pesquisa artística se mistura aos caminhos que o artista propõe em sala de aula, enquanto a docência produz questões e referências que alimentam sua obra. “É um jeito de me manter ativo e de misturar essas duas coisas; uma alimentando a outra”, explica.
Sua atuação acadêmica inclui ensino de artes visuais, formação de professores, ilustração, relações étnico-raciais e culturas negro-brasileiras. Nessas dimensões, Josias compreende arte como forma de produzir conhecimento, não apenas de representar conteúdos conhecidos.
Esse princípio também orienta seu olhar para as Amazônias. Para ele, a imagem pode revelar relações invisibilizadas, restituir centralidade a sujeitos historicamente apagados e colocar em circulação conhecimentos constituídos nos territórios.
A obra de Josias evidencia múltiplas formas de conhecer e narrar as Amazônias
Na produção de Josias Marinho Casadecaba, tudo está interligado. A riqueza das variedades de vida amazônica se sustenta nas relações desenvolvidas com os territórios, nos conhecimentos transmitidos entre gerações e na diversidade cultural dos povos que os habitam.

Ao reunir arte, educação, literatura e pesquisa, Josias amplia os imaginários sobre as Amazônias e contribui para colocar experiências negras e quilombolas no centro das narrativas.
Agora, sua obra também inspira a identidade visual dos canais digitais da Concertação e ajuda a ampliar o diálogo sobre biodiversidade a partir das culturas, dos saberes e das perspectivas produzidas nos territórios amazônicos.