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Da COP 30 à implementação

A Conferência do Clima em Belém proporcionou o fortalecimento do multilateralismo, chamou atenção para a centralidade das pessoas nos processos decisórios, jogou luz sobre a agenda de desenvolvimento das Amazônias e convocou a sociedade para a agenda de implementação – avaliam participantes da plenária realizada pela Concertação

Por Amália Safatle

A inda que a COP 30 não tenha trazido avanços proporcionais à urgência da mitigação dos gases de efeito estufa – como já era previsto diante do contexto geopolítico – a “metade cheia do copo” revelou uma série de aspectos positivos. Entre eles, a inclusão de importantes atores no debate climático, desde economistas, cientistas e empresas, até representantes do agronegócio, da sociedade civil organizada e de grupos historicamente vulnerabilizados, como povos indígenas e populações tradicionais.

O ambiente democrático e acolhedor encontrado em Belém, após sucessivas COPs do clima realizadas em países sob governos autoritários, proporcionou o fortalecimento do multilateralismo, chamou atenção para a centralidade das pessoas nos processos decisórios, jogou luz sobre a agenda de desenvolvimento das Amazônias e convocou a sociedade para a agenda de implementação.

Essa é a avaliação compartilhada durante a 35ª plenária da rede Uma Concertação pela Amazônia, realizada em 8 de dezembro, com presença online de 122 pessoas. Participaram do encontro, intitulado “Da COP 30 à implementação – Agenda para as Amazônias”, Ana Toni, diretora executiva da COP 30; André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) eenviado especial para a sociedade civil; e Denis Minev, diretor-presidente do grupo manauara Bemol e enviado especial para o setor privado da Amazônia.

A temática da plenária dialoga com a arte de Yan Bentes, artista visual, ilustrador e designer paraense que transforma lembranças de infância em imagens, convidando a imaginar futuros possíveis para as Amazônias. Entre seres míticos e sonhos, Bentes revela uma Amazônia onde o real e o maravilhoso coexistem. Para ele, a COP 30 reforça a importância de ouvir quem vive ali. E esse movimento é tanto político quanto simbólico. “Espero que possam ver que a gente existe, que estamos fazendo muita coisa bacana”, diz o artista à Concertação, que escolheu o seu trabalho para “vestir” seus conteúdos neste mês de dezembro. Segundo a organização, as figuras híbridas que Bentes cria, parte humanas, parte natureza, evocam a ideia de olhar o mundo também pelos olhos da floresta e dos rios, reconhecendo outras formas de vida e de sensibilidade.

Conquistas e legados

Apesar dos impasses diplomáticos, Ana Toni destaca o fato de 52 resoluções terem sido acordadas na COP 30 – o maior número de acordos na história das COPs do clima. Isso significa que a Conferência foi capaz de obter consensos entre 195 países, dos quais 122 se comprometeram com NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas).

A diretora também ressalta a centralidade conferida aos povos indígenas e às populações tradicionais. Seus direitos foram expressos logo no primeiro parágrafo do texto final da COP, Mutirão Global: unindo a humanidade em uma mobilização global contra a mudança climática.

“O preâmbulo do Mutirão tem uma linguagem muito forte sobre estarmos no coração da Amazônia, enfatizando os povos indígenas e a importância de conservar, proteger e restaurar a natureza”, observa Ana Toni.

Além dos avanços normativos, Ana Toni aponta dois legados políticos: os mapas do caminho (planos com metas e prazos) para a transição para longe (transition away) dos combustíveis fósseis e para a proteção das florestas. No mesmo dia 8 de dezembro, o governo brasileiro determinou que os ministérios de Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente e a Casa Civil elaborassem em até 60 dias uma proposta de transição energética. Determinação similar ocorreu na Noruega, onde o governo criou uma comissão voltada ao assunto.

Ela ainda cita como legado da COP 30 os 120 planos de aceleração apresentados pelos mais diversos atores, como governos subnacionais, empresas e organizações da sociedade civil, e que integram a chamada Agenda de Ação – entre eles a iniciativa Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), que já recebeu aporte de US$ 7 bilhões e pretende captar US$ 25 bilhões em capital inicial, proveniente de governos e bancos multilaterais. “São iniciativas que, se tivessem de ser acordadas por consenso, jamais teriam sido aprovadas. Isso mostra a importância da Agenda de Ação e temos muitos planos para torná-la ainda mais robusta nesse ano [de 2026]”, diz. “A grande diferença desta COP é ser a COP da implementação.”

Outro aspecto mencionado por Ana Toni foi a coesão nacional. Segundo ela, havia muito receio de que a sociedade brasileira se mostrasse dividida, mas isso não aconteceu. “O Brasil chegou inteiro nessa COP. A gente não fez lavagem de roupa suja. Sociedade civil, setor privado, governos subnacionais, governo federal – todos apresentaram o Brasil como um provedor de soluções climáticas. O mundo conheceu um Brasil proativo e não na defensiva. A gente chegou de cabeça em pé.”

“Teve inclusão indígena, e teve inclusão de empresário também”, observa André Guimarães, do Ipam. “Vocês se lembram que, até  poucos meses antes da COP, o agro dizia que ia fazer um contraponto da COP em Marabá? Ao contrário disso, fizeram a AgriZone na Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], e foi um sucesso.”

“Portanto, esta foi uma COP inclusiva, não só do ponto de vista de minorias e dos mais vulneráveis, mas também do ponto de vista de setores que precisam entender o que significa mudança climática e mudar seus comportamentos”, complementa o enviado especial da Sociedade Civil para a COP 30.

Denis Minev, enviado especial do setor privado da Amazônia, destaca a mistura de atore, desde a presença do agro nacional na AgriZone, e de representantes das federações de indústrias do Amazonas, Pará, Roraima e Rondônia, a jovens empreendedores em investimento de impacto, além do grande empresariado nacional, economistas e cientistas.

“Você tinha empresários conversando com economistas, com lideranças da sociedade civil indígena, com cientistas. Isso me pareceu uma circunstância nova, única. Foi muito enriquecedor”, avalia Denis Minev.

COP na Amazônia

Os participantes consideraram acertada a decisão de o Brasil ter escolhido a Amazônia para sediar a COP. Em que pesem os problemas de logística, a realização da Conferência em Belém posicionou a região como protagonista do desenvolvimento, desfazendo visões pré-concebidas que não condizem com a realidade. O mundo teve a oportunidade de conhecer a Amazônia real – e com muito calor humano. “O carinho com que Belém, os paraenses e os amazônidas nos receberam deixou todo mundo maravilhado. O próprio Brasil conheceu a Amazônia de um outro ângulo. O legado da identidade brasileira foi outro ganho imenso da COP 30”, diz Ana Toni.

Na sua visão, realizar a COP na Amazônia foi também fundamental para ampliar as vozes dos povos indígenas e das populações da região. “Com a presença indígena e de afrodescendentes, mulheres, jovens e crianças, com a passeata de 70 mil pessoas e com a participação dos special envoys, o Brasil deu um show de democracia, se comparado com todas as outras COPs recentes”, salienta Toni.

A avaliação é corroborada por Guimarães. “Na semana anterior à COP, ninguém mais falava de dilemas logísticos. Todo mundo foi acomodado. O ambiente positivo para as negociações e para os diálogos foi criado. A estrutura como um todo funcionou. Teve pico de frequência na Blue Zone, com mais de 40 mil pessoas. A cidade ficou um agito”, enumera o enviado especial da sociedade civil. ”Quem apostou contra Belém ‘quebrou a cara’.”

“Belém ficou incrível e o legado para a cidade foi extraordinário. Casarões restaurados, a população orgulhosa, a rede hoteleira, os museus. A Copa do Mundo no Brasil não conseguiu deixar um legado semelhante”, diz Minev, da Bemol.

O que vem a partir de agora

Guimarães lembra que, até a COP 29, discutiam-se sobretudo regras, metas e indicadores. “Ou seja, era uma discussão árida, restrita a poucos entendidos. A COP 30 inaugurou uma outra fase da discussão sobre o clima do planeta como um todo. Agora estamos discutindo ação concreta, o papel de cada setor, de cada grupo”. Em sua visão, o assunto do clima percolou para a sociedade. “Esse foi o maior ganho que a gente teve”, afirma.

Para avançar nos mapas do caminhos, Ana Toni enfatiza a necessária continuidade dos trabalhos dos enviados especiais, considerando que a presidência do Brasil vigora até que se passe o bastão na COP 31, a ser realizada na Turquia em 2026, com liderança da Austrália. A diretora executiva destaca que também são muito bem-vindas as colaborações de organizações nacionais e internacionais que detêm conhecimento sobre os temas de energia e florestas. ”Tanto em um roadmap como no outro, estamos em pleno planejamento interno para começar a esboçar esses mapas e, certamente, vamos precisar de ajuda”, diz.

Ela também defende replicar a lógica da Agenda de Ação e dos planos de aceleração em todas as climate weeks (semanas do clima) de 2026, como forma de manter vivo o engajamento e facilitar a implementação.

Outro ponto de atenção levantado durante a plenária é a necessidade de articulação entre as diversas convenções das Nações Unidas – Clima, Biodiversidade e Desertificação – a fim de encontrar sinergias e evitar sobreposição de ações.

Desafios

Embora o Brasil tenha demonstrado capacidade de controlar o desmatamento – como ocorreu recentemente e também entre 2003 e 2012, com queda de 80% na taxa na Amazônia –, o País ainda enfrenta dificuldades em sustentar esses avanços. Em mudanças de governo, como foi no caso da gestão Bolsonaro, o desmatamento explodiu.

André Guimarães explica que isso se deve a razões estruturais. Para baixar o desmatamento, políticas de comando e controle são eficazes, mas mantê-lo baixo requer uma mudança de paradigma, de modo que a floresta em pé seja mais valorizada. “O modelo de desenvolvimento e os incentivos têm que mudar”, diz. “Há 33 anos trabalho na agenda ambiental com um grande objetivo de vida: um dia ver que a floresta em pé vale mais do que a floresta deitada”. Por isso, Guimarães considera um divisor de águas o dia 5 de novembro, quando o TFFF recebeu aportes bilionários durante a Cúpula de Líderes, realizada às vésperas da COP 30.

“Eu fui dormir naquele dia com o coração reconfortado”, relata. “A gente tem já instrumentos como REDD+ [Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal e PSA [Pagamentos por Serviços Ambientais], mas eles são pontuais, resolvem problemas de projetos, de territórios específicos. Do ponto de vista do planeta inteiro, foi a primeira vez que vi um instrumento voltado para o único propósito que é de valorizar a floresta em pé.” E sem a fragilidade do Fundo Amazônia, que também pode ser travado quando um governo é contra, como ocorreu em 2023.

“Isso não quer dizer que o TFFF vá resolver todos os problemas, ao contrário”, pontua Ana Toni. “Mas o instrumento trouxe um debate para além da área ambiental e que envolve os ministérios de Fazenda [de diversos países] para pensarem em instrumentos econômicos. A gente está trazendo economistas para valorizar um recurso que nunca valorizaram – a mesma coisa se dá com o mercado de carbono florestal, de floresta plantada. Não quer dizer que amanhã vai ter recurso em abundância na Amazônia, mas há uma mudança estrutural”.

Um dos desafios, entretanto, é fazer com que os recursos cheguem na ponta, ou seja, em empreendimentos que constituem a economia da floresta e que, segundo Guimarães, dependem de condições habilitantes para florescer, como infraestrutura, capital humano e bons planos de negócios.

Minev acredita que um resultado prático da COP é o aumento de capital disponível. Mas o crescimento da bioeconomia depende da ação de todos: “Há casos incríveis de empreendedores habilitados, que têm experiência e track record, mas não têm, digamos assim, tanto apoio para vender seus produtos ou obter capital para continuar crescendo. Isso não precisa ser resultado de negociações na COP, pode ser resultado da nossa ação individual”, afirma.

Institucionalização da Concertação

Após completar cinco anos em junho de 2025, a rede Uma Concertação pela Amazônia conclui seu processo de institucionalização e renova seu quadro de governança. O cargo de secretária executiva passa de Lívia Pagotto para Fernanda Rennó (também responsável pela frente de Cultura da Concertação), e Joanna Martins, sócia-fundadora da Manioca e diretora do Instituto Paulo Martins. Paula Sleiman assume a coordenadoria executiva da rede. Com isso, Pagotto assume      integralmente o papel de diretora institucional do Instituto Arapyaú.

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