Entre rios, memórias e encantarias, o artista constrói uma Amazônia plural e afetiva, onde a ancestralidade inspira visões de futuro que transcendem a crise climática
Nascido em Juruti (PA) e residente em Manaus, o artista visual, ilustrador e designer Yan Bentes transforma lembranças de infância em imagens que convidam a imaginar futuros possíveis para as Amazônias. Pela arte, ele se conecta com sua terra e seus antepassados, convertendo esse legado em inspiração para o presente e o amanhã.
“A arte foi o melhor caminho que encontrei para contar sobre tudo que aprendi com meus pais, meus avós e as pessoas da minha terra”, afirma Yan. Em suas obras, afeto, misticismo e ancestralidade se entrelaçam para celebrar modos de vida e fortalecer memórias que resistem ao apagamento.
Entre rios e seres míticos, Yan revela uma Amazônia onde o real e o maravilhoso coexistem. Fascinado pelas histórias de encantarias e pelos “bichos do fundo” narrados por Zeneida Lima Zeneida Lima é uma pajé, ambientalista e escritora brasileira, autora do livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó”, que explora o universo místico dos Caruanas, seres encantados da mitologia da região, que vivem no fundo de rios e lagos. , o artista incorpora ao seu trabalho o mistério das águas e a presença espiritual que habita o território.
As figuras híbridas que cria, parte humanas, parte natureza, evocam a ideia de olhar o mundo também pelos olhos da floresta e dos rios, reconhecendo outras formas de vida e de sensibilidade. Por meio do desenho e da ilustração, o artista percorre caminhos através dos quais transforma o cotidiano amazônico em histórias visuais que afirmam identidade e pertencimento.
Das margens do rio ao traço
O interesse de Yan pela arte começou na infância, observando seu tio Ednart desenhar alegorias para o Festribal, festival que celebra as culturas indígenas Muirapinima e Munduruku em Juruti. Esses primeiros olhares para o ambiente despertaram a curiosidade e o encantamento que hoje orientam sua obra.
A percepção de que poderia viver do fazer artístico só surgiu anos depois. Quando Yan se mudou para Manaus em busca de oportunidades de estudo e trabalho, foi a computação que se apresentou primeiro como opção de carreira. Nessa época, ele estudou Gestão e Tecnologia da Informação e, trabalhando como estagiário no Centro de Mídias de Educação do Amazonas, teve seu primeiro contato com o Design Gráfico.
Logo se envolveu com a disciplina, passou a divulgar suas artes nas redes e buscou aprofundar seus conhecimentos com uma especialização em Arte e Sociedade. Ainda assim, somente quando foi convidado pelo escritor Jan Santos a ilustrar a obra “O Livro do Rio: Iguaraguá” (2021) é que Yan percebeu que “conseguia falar com minhas ilustrações, com o meu traço”. A obra venceu o Prêmio Manaus de Conexões Culturais e, desde então, a dupla já publicou mais um livro, “Rudá: Filho da terra e das estrelas” (2023), que conquistou o Prêmio Thiago de Mello.
Em paralelo ao trabalho editorial e artístico, ele segue no Centro de Mídias de Educação do Amazonas, agora criando ilustrações didáticas que aproximam o conteúdo escolar da realidade do território. “É gratificante ver as crianças se reconhecendo nas imagens. Eu queria ter tido um material didático assim na minha época”, conta.
Hoje, como seu tio, ele também cria ilustrações e identidades visuais para grandes eventos, como o Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, o Festival de Teatro da Amazônia (FTA) e a Feira Literária do Amazonas (FLAMA).
Esse trabalho voltado à educação e à valorização cultural fortaleceu seu propósito de representar a Amazônia por dentro — com seus rostos, gestos e modos de viver — e revelar, pela arte, a potência de imaginar futuros possíveis a partir das próprias raízes.
Seu profundo sentido de conexão com o território e de compromisso com a educação é uma das razões pelas quais Yan foi um dos artistas convidados pela Concertação a criar duas cartas para o jogo Dixit Amazônias O Dixit Amazônias é a edição especial do jogo, criada pela Concertação em parceria com a editora Asmodee. Ela traz cartas ilustradas por artistas amazônidas, representando cinco visões da região: Conservada, Convertida, Em Transição, Urbana e das Águas. . Lançada em novembro de 2025, a edição especial do jogo se propõe como ferramenta para narrar o território pela sensibilidade e pela escuta. O jogo foi distribuído gratuitamente às escolas da região que participam do programa Itinerários Amazônicos O programa Itinerários Amazônicos é uma realização dos institutos iungo e Reúna e da Concertação, em parceria com BNDES, Fundo de Sustentabilidade Hydro, Instituto Arapyaú, Movimento Bem Maior e patrocínio da Vale., que já impactou 44 mil educadores por meio de materiais pedagógicos e processos de formação que promovem a Amazônia nas escolas brasileiras.
Amazônia que se reconhece: identidade e pertencimento
A obra de Yan rejeita os clichês sobre a região. Seus trabalhos mostram uma Amazônia plural, formada por povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e populações urbanas que compartilham modos de vida entrelaçados. “A gente não é só arara-vermelha, vitória-régia ou boto”. Para ele, esses são elementos importantes, mas não os únicos a serem lembrados. “Temos muitas Amazônias”, afirma o artista.
“O rio é nossa estrada, nosso caminho, nossa rua. É por onde meus pais ainda se conectam comigo”, conta Yan. Ao transformar essas experiências em imagens, ele faz da arte uma forma de continuidade: cada traço é também um gesto de reverência à memória e à espiritualidade amazônicas.

Seu olhar para o cotidiano revela uma dimensão política e afetiva: desenhar a própria terra é um ato de afirmação. Yan valoriza gestos e objetos cotidianos — o leque de palha, as ervas da avó, a cuia que atravessa gerações — mostrando a sabedoria que existe na simplicidade e na continuidade entre gerações.
Cada obra, diz o artista, é um convite ao reencontro com as origens. Suas composições recriam cenas familiares, cheias de cor e delicadeza, como quem insiste em lembrar que o cotidiano amazônico é um espaço de criação e resistência. “A gente precisa se afirmar e celebrar a nossa existência. Atualmente, vivemos um esquecimento, e é importante reforçar o quanto somos grandes”, observa.
Para Yan, a COP30 representou uma oportunidade de superar essa invisibilidade: “Espero que possam ver que a gente existe, que estamos fazendo muita coisa bacana.”
Imaginar para existir: a arte amazônica pós-COP30
Ao refletir sobre o que a arte pode revelar no debate climático, Yan ressalta a importância de recuperar a capacidade de imaginar. Inspirado no pensamento de Aílton Krenak, ele reivindica a ideia de que “precisamos sonhar para adiar o fim do mundo. Em um mundo acelerado, as pessoas têm perdido o gesto de sonhar, algo essencial quando se trata do futuro das Amazônias. “Quando se fala em crise climática, pensamos em fim do mundo. A arte ajuda a sonhar futuros possíveis”, afirma.
Assim, ampliar a percepção, produzir outras imagens e expandir o campo de sensibilidade diante de um bioma frequentemente apresentado apenas pelo prisma da destruição é um dos eixos de seu trabalho. Nas cenas que cria, a floresta, os rios e os povos que os habitam aparecem não como símbolos distantes, mas como protagonistas de um futuro que pode (e precisa) ser imaginado a partir da própria região.
Para ele, a COP30 reforçou a importância de ouvir quem vive ali. E esse movimento é tanto político quanto simbólico. “Espero que possam ver que a gente existe, que estamos fazendo muita coisa bacana”, diz. A visibilidade alcançada durante e após a conferência não é apenas um reconhecimento individual, mas um chamado para que mais artistas amazônidas tenham espaço, apoio e oportunidade de projetar outros horizontes possíveis para suas comunidades.
Em seu trabalho, imaginar não é escapismo. É insistir na continuidade, afirmar a potência da vida amazônica e desafiar narrativas de apagamento. Suas composições visuais propõem fissuras nas imagens hegemônicas sobre a região, lembrando que a Amazônia produz cultura, pensamento, estética e futuro.
Quando a vida vira imagem: obras que contam histórias
As ilustrações de Yan Bentes são atravessadas por lembranças que, ao serem partilhadas, convidam outros a se reconhecerem nesses fragmentos da vida amazônica.
Em Criancice, por exemplo, Yan revisita as tardes em que ele e os amigos se jogavam das árvores no lago do Jará, em Juruti. A imagem da criança em queda livre, rodeada por piranhas e botos, reúne coragem, brincadeira e vínculo com o rio. No primeiro plano, mãos sustentam uma cuia cheia de açaí. São as mãos do próprio artista, fotografadas por ele, em um gesto que simboliza oferta e partilha: entregar ao público uma memória que ainda pulsa.
“Tudo que eu faço é feito pelas minhas mãos”, diz Yan. Aqui, elas se tornam ponte entre passado e presente.

Já a obra Natureza e a Pandemia imagina um retorno da floresta enquanto as pessoas permaneciam em casa. A Mãe Natureza se expande sobre casas, canoas e objetos do cotidiano, como se retomasse o espaço interrompido pela rotina urbana. Tons terrosos e quentes reforçam o clima de calor amazônico, mesmo em meio ao silêncio das ruas. “Quis trazer essa perspectiva de como a natureza voltou a tomar conta de tudo por um tempo”, explica.

Balão Pirarucu (2024)
Para o Festival de Teatro da Amazônia, Yan criou uma visão fantástica: um pirarucu que se transforma em balão e carrega pessoas e animais de diferentes origens, como uma metáfora para a dimensão coletiva das culturas amazônicas. Misturando boto, galo-da-serra, periquito, mico-leão-dourado e outras figuras, a obra celebra a circulação cultural entre estados brasileiros e a presença de artistas de diversas regiões.
“Quis trazer uma Amazônia bem louca, como é o teatro”, brinca o artista.

Com Yan, vemos a Amazônia que imagina, cria e continua
A obra de Yan Bentes reafirma a importância de reconhecer quem vive e cria nas Amazônias como protagonista das narrativas sobre o próprio lar. Suas ilustrações mostram que imaginar o futuro exige sensibilidade para escutar conhecimentos, memórias e experiências que nem sempre aparecem nos debates técnicos, mas sustentam a vida na região.
Ao compartilhar essas histórias, Yan amplia a compreensão da pluralidade amazônica e inspira novas leituras sobre o presente e o futuro. Sua arte nos lembra que preservar e transformar as Amazônias passa por valorizar as pessoas, cosmologias e capacidade de imaginar mundos. Um chamado essencial para qualquer agenda comprometida com o território.