Para o cineasta, artista visual e fotógrafo Paulo Desana, a fotografia é uma maneira de tornar visíveis dimensões abstratas que são de difícil expressão nas artes visuais: o conhecimento, a memória e a permanência dos povos indígenas. O amazonense pertencente à etnia Desana busca construir imagens que revelem a presença viva do conhecimento ancestral.
Em conversa com a Concertação, Paulo falou sobre seu trabalho e sua experiência como artista.
Inquietação e busca pela identidade como força motriz da sua arte
Sua obra nasce de uma pergunta que se formou ao longo de uma trajetória marcada por ausências e descobertas. Como mostrar que esses conhecimentos não pertencem apenas ao passado, mas seguem vivos nos corpos, nas práticas e nos territórios indígenas?
Durante a infância e a adolescência, Paulo não teve acesso a informações sobre sua origem indígena. Nascido em São Gabriel da Cachoeira, na região do Alto Rio Negro (AM), onde convivem 23 etnias, hoje ele comenta com certo espanto esse apagamento, vindo não só de dentro da própria família, mas principalmente da história ensinada na escola, que reforçava a ideia de que esses povos pertenciam ao passado. “Dava a impressão de que não existiam mais povos indígenas”, lembra.
Longe de ser um processo individual, essa é uma experiência compartilhada por muitas pessoas de ascendência indígena, que cresceram sem acesso a informações sobre a presença e a identidade dos seus povos no território.
O encontro com a própria história parte do seu trabalho na FOIRN
No caso de Paulo, foi apenas ao começar a trabalhar na Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) que ele passou a compreender sua história e a continuidade dos povos ancestrais. O contato com lideranças, narrativas e conhecimentos transformou sua visão da própria trajetória e identidade. É a partir desse momento que a sua relação com a cultura, o território e a história indígena passa a orientar sua produção artística.
Desde cedo, seu trabalho se moldou nesse desconforto. O artista conta que, ao observar fotografias de pessoas indígenas feitas por outros profissionais, reconhecia a qualidade estética das imagens, mas sentia falta de algo essencial. “Eu via fotos muito bonitas, mas me perguntava: será que isso mostra o conhecimento, a história e a cultura que essa pessoa carrega?”, questiona.
Essa pergunta orienta toda a construção da sua linguagem, na qual a fotografia se torna um meio de revelar aquilo que não aparece de imediato e de mostrar que esses conhecimentos seguem vivos. Nela, a cultura não está no passado, mas presente no cotidiano, construindo a continuidade entre o ontem e o hoje.
A luminescência como forma de narrar a permanência ancestral
O momento de virada do artista aconteceu durante a pandemia, quando Paulo encontrou na fotografia com tinta luminescente uma possibilidade de linguagem. A partir daí, passou a desenvolver uma estética própria, na qual grafismos, corpos e luz se combinam para expressar a presença dos antepassados no presente.
As imagens que ilustram este texto são exemplos dessa descoberta artística.


Uma obra em que as mitologias sustentam os saberes
A base de seu trabalho está nas mitologias e nos conhecimentos dos povos do Alto Rio Negro. Entre elas, a narrativa da Cobra-Canoa O mito da Cobra-Canoa, com algumas variações, é comum a diversas etnias do Alto Rio Negro, como os Desana e os Tukano. Ele explica o povoamento da região a partir de uma serpente gigante que atravessa os rios, trazendo os primeiros seres humanos em seu ventre. Ela simboliza a origem, a identidade e a organização social desses povos. ocupa um lugar central. Segundo essa cosmologia, os povos indígenas se originaram de um percurso ancestral realizado pela Cobra-Canoa, no qual diferentes grupos e saberes vão se constituindo ao longo do caminho.
Nesse contexto, surge uma das séries mais conhecidas do artista, “Pamürimasa – Os Espíritos da Transformação”, na qual ele busca expressar a presença dos antepassados nos corpos e nas práticas atuais. A luz evidencia, nos grafismos e nos gestos, a permanência de um conhecimento ancestral.
“A ideia era mostrar que esses conhecimentos vêm dos antepassados e continuam vivos hoje”, explica. Ao construir essas imagens, Paulo revela que a cultura está presente nos indivíduos, em suas experiências e modos de vida.
O processo de criação acompanha essa lógica. As pessoas retratadas são moradoras das comunidades do Alto Rio Negro e contribuem com os grafismos ligados ao seu povo e à sua trajetória. Assim, a fotografia de Paulo parte de um reconhecimento prévio e de uma relação de confiança. “Eu já conhecia essas pessoas. Explicava o projeto e elas levavam seus grafismos”, conta.
Antes da fotografia, há tempo para conversa, escuta e troca. As imagens não são apenas feitas: são construídas em conjunto, a partir de relações que já existem e se aprofundam nesse encontro.

Território, floresta e conexão como bases estéticas e simbólicas
A Amazônia atravessa toda a produção de Paulo Desana. “A Amazônia é esse caldeirão de cultura, de arte, de tudo”, comenta o artista.
Para ele, a floresta é um espaço de presença e pertencimento, onde se concentram conhecimentos, práticas e formas de vida que orientam sua criação artística. Ali estão as histórias e as conexões que alimentam seu trabalho, que também orientam formas próprias de relação com o território e seus recursos. “Sempre que posso ir para a floresta, eu vou. É onde a gente se sente conectado”, diz.

Da fotografia ao audiovisual: formas de mostrar diferentes dimensões da cultura e pensar o futuro
Essa mesma inquietação se estende ao audiovisual. Por meio da produtora Dabukuri Entretenimento, Paulo desenvolve projetos que exploram diferentes aspectos da cultura indígena amazônica. Entre eles, se destacam uma série sobre gastronomia tradicional, que procura revelar não apenas os pratos, mas as histórias e mitologias que os acompanham, e um longa-metragem que articula ficção e narrativas ancestrais.
Nos trabalhos em desenvolvimento, surge uma nova investigação: como os povos indígenas se projetam no futuro? A proposta é imaginar um mundo no qual tecnologia e tradição coexistem — e no qual decisões sobre o uso dos territórios e dos recursos naturais considerem também os conhecimentos ancestrais.
Nesse horizonte, o conhecimento indígena não aparece como herança do passado, mas como referência viva para pensar caminhos possíveis de desenvolvimento.

As culturas indígenas estão vivas nos corpos, nos gestos e nos territórios
Na trajetória de Paulo, a arte se consolida como um eixo de orientação. Não é mera profissão, é um modo de compreender e expressar o mundo. “A arte é o que me guia”, resume. É nela que o artista encontra uma resposta ao apagamento histórico e simbólico dos povos indígenas.
Ao tornar visível o que muitas vezes não é reconhecido, Paulo Desana afirma a existência e a continuidade dessas culturas. “Um povo sem cultura é um povo que não existe. A cultura é a nossa base”, ressalta.
Seus trabalhos mostram que cultura não é uma memória distante. É base e estrutura; é aquilo que sustenta a existência de um povo. Tornar isso visível é, ao mesmo tempo, um gesto artístico e um posicionamento ético e político que também contribui para ampliar o debate sobre os caminhos de desenvolvimento na Amazônia e sobre como diferentes formas de conhecimento podem orientar decisões sobre seu futuro.
