Quem se coloca diante das grandes telas assinadas pelo artista, com sua luz filtrada, cores intensas e ausência deliberada de figuras humanas ou animais, recebe um convite para entrar na floresta e, nela, deixar-se envolver
Nas obras de Miguel Penha Chiquitano (Cuiabá, MT, 1961), as paisagens se transformam em experiências. Ele não apresenta recortes do mundo natural, mas a tradução pictórica de uma vivência. Transitar por suas obras é como atravessar uma mata fechada, onde a orientação se dissolve e o tempo parece suspenso. Essa não é uma escolha casual. Ela expressa uma compreensão da floresta como presença viva e autônoma.
Em entrevista à Concertação, Miguel revisita sua trajetória e discute o “novo naturalismo”, conceito com o qual define sua prática artística, que se afasta tanto do registro documental quanto da idealização romântica da natureza.
A floresta é uma linguagem viva, não um cenário
Amazônia, Cerrado e Pantanal não aparecem em suas obras como cenários reconhecíveis. Longe de serem elementos ilustrativos, cipós, raízes, palmeiras, folhas, águas e névoas funcionam como signos carregados de memória e sensibilidade. As espécies retratadas são reais e identificáveis, mas as cenas são imaginadas.
Por vezes, Miguel reúne, em uma mesma tela, plantas que não existem em um mesmo território. A escolha rompe com a lógica geográfica e abre espaço para outra forma de organização, baseada na experiência acumulada ao longo de décadas de convivência com paisagens diversas.
“As espécies são verdadeiras, são nativas, mas a paisagem é imaginária. Eu vou criando a partir da sensação que aquele elemento me traz”, comenta Miguel.
O resultado são florestas construídas a partir da sobreposição de lembranças, caminhadas e afetos, que deixam de ser objeto de representação e passam a operar como linguagem. Elas falam por meio da cor, da luz e da densidade das formas, ativando no espectador uma memória que nem sempre é individual e pode se conectar com uma dimensão ancestral.
Guaricanga, caranaí, ubim: uma palmeira, muitos territórios
Podemos pensar na palmeira guaricanga, também conhecida como caranaí ou ubim, presente tanto na Mata Atlântica quanto na Floresta Amazônica e recorrente em suas obras. Além de botânica, a escolha é afetiva e cultural. “Ela aparece em vários lugares e tem muitos nomes. Eu gosto dela porque carrega história”, conta o artista.
Miguel conheceu o uso dessa palmeira em aldeias indígenas e comunidades tradicionais, onde suas folhas são utilizadas para a cobertura das casas. Quando secam, ganham um tom dourado intenso, que reverbera luz. Ao atravessar biomas e culturas, a guaricanga sintetiza um dos gestos centrais de sua pintura: articular espécies em paisagens imaginadas, nas quais memória, experiência e ancestralidade se sobrepõem.
A palmeira pode ser vista em diversas de suas obras, como A Floresta e seus mistérios:

Foto: Taiguara Luciano
Do território ao ateliê, uma jornada que vai além da experiência visual
O processo criativo de Miguel começa longe da pintura. Caminhar pelos três biomas, observar a incidência da luz, identificar espécies, sentir a umidade do solo e a temperatura do ambiente são etapas fundamentais do seu trabalho. Em alguns momentos, ele faz registros a partir de esboços ou fotografias. Em muitos outros, leva consigo apenas a lembrança da experiência.
No ateliê, a paisagem se transforma em pintura. A memória das sensações se materializa em imagens construídas de forma intuitiva, sem planejamento rígido. Com raras exceções, não há a intenção de reproduzir um lugar tal como ele é, mas sim de recriar a energia que aquele espaço produz.
Para o artista, tanto a natureza quanto a pintura proporcionam equilíbrio pessoal. Pintar é uma forma de reorganização interna, um exercício de atenção e escuta que também se oferece ao outro. “A natureza me equilibra e a pintura também. É onde eu me encontro”, diz.
Na pintura de Miguel, escala e cor são caminhos para a imersão sensorial
O uso frequente de telas de grandes dimensões, que chegam a 4 metros de largura, amplia o impacto sensorial das pinturas e exige o deslocamento físico de quem as observa, segundo Miguel. A escala impede uma visão totalizante e obriga o olhar a percorrer a superfície, como quem atravessa uma paisagem real.
Não por acaso, a cor é um dos principais instrumentos dessa construção. As pinturas resultam da aplicação de tinta em múltiplas camadas, com intensa experimentação cromática e sem o uso do preto. A luz que atravessa a mata não é desenhada, mas construída nas relações entre tons.
A profundidade e o contraste surgem da mistura de cores, em uma decisão consciente de evitar contornos fáceis ou efeitos imediatos. Sobre essa escolha, o artista comenta: “o preto é muito apelativo. Eu quero conseguir luz e contraste de outra forma, sem esse atalho”.
A ausência de figuras humanas e animais reforça essa lógica. Ao evitar pontos de identificação direta, Miguel desloca o centro da cena para a própria floresta. Não há ação ou presença que organize o espaço; há matéria vegetal em sua densidade, afirmando a floresta como sujeito.
No painel Igarapé, por exemplo, o artista reúne espécies amazônicas como a samaúma e o cipó mariri (utilizado na preparação da Ayahuasca), criando a cena de um igarapé que não corresponde a um território específico. “As espécies são verdadeiras, mas esse lugar não existe. Sou eu quem crio a paisagem”, explica.

Foto: Nailana Thiely
Aqui, a floresta não é plano de fundo nem uma representação fiel: ela se apresenta como um organismo vivo, denso e pulsante, que envolve quem a observa.
Raízes indígenas na formação do olhar
Esse vínculo com as paisagens florestais recordadas, ainda que imaginárias, tem raízes profundas. Miguel nasceu às margens do Rio Cuiabá (MT), filho de pai Chiquitano Povo indígena que habita a região de fronteira entre o oeste do Mato Grosso e o leste da Bolívia. e mãe Bororo Povo indígena também natural da região de fronteira entre o Mato Grosso e a Bolívia, podendo ocupar ainda áreas de Goiás. . Desde a infância, viveu em relação direta com a terra, os rios e as plantas, aprendendo a reconhecer espécies, seus usos e ciclos.
A memória indígena atravessa seu trabalho como prática: na atenção aos detalhes da flora, no respeito aos ritmos naturais e na compreensão da floresta como ser vivo. A experiência acumulada ao longo da vida se manifesta menos como discurso e mais como prática. “A natureza é nossa mãe. É ela que nos dá tudo”, explica.
Autodidata, o artista construiu sua trajetória fora da formação acadêmica e buscou conhecimentos técnicos de maneira pontual, para garantir autonomia material e durabilidade às obras. Essa formação contribuiu para uma prática livre, guiada pela observação e pelo tempo.
‘Novo naturalismo’ e ética da pintura
Quando define seu trabalho como um “novo naturalismo”, Miguel não propõe um retorno acadêmico nem uma atualização formal de seus códigos. O termo expressa uma postura ética diante da natureza e da própria criação artística. Trata-se de reconhecer a floresta como sistema vivo e em transformação e de construir uma linguagem que dialogue com essa vitalidade.
O artista não busca a fidelidade óptica, mas fidelidade à sensação. “Uso a técnica para garantir a qualidade do trabalho, mas a pintura é uma experiência, não uma reprodução”, comenta.
Assim, ao recusar a representação literal e apostar na imaginação e na memória como formas de conhecimento, ele coloca a pintura como espaço de mediação entre experiência, território e mundo.
A floresta precisa de respeito e regeneração para voltar a ser presença
A obra de Miguel também tensiona o imaginário da devastação ambiental, que associa esses territórios à exploração, à escassez e ao colapso. Ao apresentar florestas densas e equilibradas, suas pinturas afirmam a potência de regeneração da floresta.
Para o artista, a floresta não precisa ser protegida por discursos abstratos, mas pelo respeito à sua capacidade de se regenerar. “Se você quer proteger a floresta, deixe ela quieta. Ela se regenera sozinha”, ressalta. Ainda assim, ele reconhece a urgência da restauração de áreas degradadas, nascentes e margens de rios. “Recuperar é trabalho duro. Tem que ir lá, suar e plantar”, explica.
Ao mostrar o que ainda existe, sua obra convida à observação atenta, ao cuidado e à reconexão. Em vez de impor respostas, ela cria um espaço de escuta. Um espaço no qual a floresta deixa de ser paisagem e volta a ser presença.
Floresta como experiência
Duas obras sintetizam gestos distintos de sua pintura.
Na tela Palmeira Acurí na beira do rio, o artista escolhe se manter fiel a um lugar específico. A pintura é inspirada em um trecho de rio na Chapada dos Guimarães (MT), onde costuma ir para descansar e “recarregar a energia”. “Às vezes eu olho para a paisagem e sinto que ela já está pronta”, afirma.
A identificação com o lugar e a vontade de imprimir na tela sua energia fazem com que Miguel continue trabalhando para melhor representar o local. O artista tem retornado ao mesmo ponto para observar sua luz, água e atmosfera e criar uma segunda obra, esta de maiores dimensões. “Quero fazer a volta do rio completa. Vou contornar esse buritizinho à direita até o outro lado do rio”, diz.
A decisão de revisitar o território durante o processo revela uma exceção significativa em sua prática: quando a experiência vivida é tão potente que não pede invenção, apenas escuta.

Foto: Taiguara Luciano
Já na tela Palmeira buritirana, Miguel mergulha em seu “novo naturalismo”, agora trazendo a palmeira semelhante ao buriti, mas de porte menor e crescimento em touceiras, em uma obra construída inteiramente a partir da memória. Nela, ele associa paisagens visitadas ao longo da vida, especialmente em aldeias indígenas e regiões ribeirinhas.
“Eu já vi muita buritirana na beira do rio”, lembra o artista. Ela surge acompanhada de outras espécies que Miguel conhece intimamente, compondo uma floresta que não obedece à lógica do território, mas sim à da experiência. Aqui, imaginar não é distorcer a realidade, mas reorganizar lembranças, afetos e sensações em uma nova forma de presença.

Foto: Taiguara Luciano
A arte de Miguel Penha Chiquitano nos chama a um mergulho nas florestas, sejam estas naturais ou imaginadas, estabelecendo com elas uma conexão de respeito e admiração. Em março de 2026, suas obras passam a inspirar também a identidade visual dos canais digitais da Concertação, ampliando o diálogo entre arte e soluções para as florestas do território amazônico.