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Artigo, Entrevistas

Escola Família Agroextrativista do Carvão: uma educação construída a partir dos territórios amazônicos

Em Mazagão (AP), escola atende estudantes de áreas rurais, assentamentos, reservas extrativistas e territórios quilombolas e articula formação acadêmica, saberes das comunidades e vivências familiares por meio da Pedagogia da Alternância

Na Vila do Carvão, no município de Mazagão (AP), a educação acontece em diálogo permanente com os territórios de onde vêm seus estudantes. É ali que funciona a Escola Família Agroextrativista do Carvão (EFAC), criada a partir da mobilização de lideranças locais para atender jovens de comunidades rurais e agroextrativistas.

Hoje, a escola alcança 151 comunidades, distribuídas por oito municípios e dois estados amazônicos, incluindo assentamentos, reservas extrativistas e territórios quilombolas. Em 2026, atende 198 estudantes do 6º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, todos provenientes de áreas rurais e reservas. Alguns percorrem até 12 horas de barco para chegar à escola.

Essa abrangência ajuda a dimensionar a especificidade da EFAC. A escola não apenas está localizada na zona rural: sua proposta pedagógica parte das realidades, dos conhecimentos e dos modos de vida das comunidades que atende.

Para Dalva Miranda da Silva, presidente da Associação Nossa Amazônia (ANAMA), entidade mantenedora da escola, defender esse modelo de educação significa reconhecer as particularidades dos povos e dos territórios.

“Defendemos uma educação adequada para os povos tradicionais e indígenas. Não somos uma comunidade isolada, estamos exatamente onde devemos estar. Aqui se faz construção humana.”

A frase resume um dos princípios que orientam a experiência da EFAC: formar jovens sem romper seus vínculos com os lugares onde vivem. Ao contrário, a escola busca fortalecer esses vínculos e fazer deles parte do próprio processo educativo.

Uma escola construída pelas comunidades

A EFAC nasceu em 1997, a partir da mobilização de lideranças locais, entre elas o agricultor e extrativista Tomé de Sousa Belo. O professor Jorge Dias participou da construção desde o início e foi responsável pela primeira aula da escola.

Natural de São Mateus (ES), Jorge também é egresso de uma Escola Família. Depois de ser convidado por Tomé Belo para participar da implantação da EFAC, construiu uma trajetória de mais de duas décadas dedicada à Educação do Campo e à Pedagogia da Alternância na Amazônia. Licenciado em Matemática pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), atua como professor, monitor e um dos fundadores da escola.

Professor Jorge Dias (centro) com os colegas Leoci Borges e Danilo Fabriciano

A proposta pedagógica se estrutura a partir da Pedagogia da Alternância, que intercala períodos de formação na escola e períodos de vivência junto às famílias e comunidades (conheça a vivência de alunos na série documental Novo Ensino Médio: É Sobre Isso). Na EFAC, os estudantes permanecem cerca de 15 dias na escola e outros 15 dias em suas comunidades. Durante esse período, continuam envolvidos em atividades de estudo e pesquisa.

A alternância permite que aquilo que acontece em casa, na comunidade e no território também seja reconhecido como parte do processo de aprendizagem.

Quando o território também é sala de aula

Um dos principais instrumentos da escola é o Plano de Estudo, baseado em temas geradores. Os estudantes constroem os questionários junto aos professores, levam as perguntas para casa e realizam pesquisas com familiares e membros da comunidade. Ao retornarem à escola, apresentam os resultados e participam da chamada “colocação em comum”, que transforma as informações reunidas em uma síntese utilizada pelos professores no desenvolvimento dos conteúdos curriculares.

No 6º ano, por exemplo, um dos temas trabalhados é “História e Identidade da Família”, com questões relacionadas à origem, escolaridade, saúde, higiene e moradia. O conhecimento produzido a partir dessas pesquisas não fica restrito à sala de aula: os estudantes também o expressam por meio de paródias, teatro e poemas. Parte dessa produção é registrada no Caderno da Realidade, que acompanha o estudante ao longo de toda sua trajetória na escola.

A proposta cria um movimento de mão dupla: os conhecimentos das comunidades chegam à escola, enquanto a formação escolar retorna às famílias e aos territórios.

“20% da nossa carga horária é de atividade da sessão familiar. Eu mando atividades de matemática para eles resolverem em casa. Eles não vão de férias. Com a internet, se eles têm dúvidas, entram em contato conosco. A família também acompanha”, explica Jorge.

Educação amazônida e formação para a vida

A especificidade da EFAC também aparece na rotina. Professores e estudantes compartilham tarefas de cuidado com os espaços, e parte das atividades envolve a horta, a criação de animais e a colheita de açaí. As vivências práticas integram a formação e ajudam a aproximar os conteúdos escolares das atividades realizadas nas comunidades.

Para Jorge, esse processo produz uma aprendizagem contínua, marcada pela diversidade dos estudantes e de seus territórios.

“O aprendizado é contínuo. São jovens de regiões e tradições diferentes. Recentemente visitei a Reserva Kaxari para um trabalho de telemedicina e foi um aprendizado enorme.”

Essa relação é central para uma escola que atende exclusivamente estudantes de áreas rurais e reservas. O objetivo não é uniformizar experiências, mas construir uma formação capaz de dialogar com diferentes contextos amazônicos.

Um território extenso exige uma escola em movimento

Manter uma escola com esse alcance territorial impõe desafios. Em 2015 e 2016, dificuldades relacionadas a convênios estaduais quase levaram a EFAC a interromper suas atividades. A escola permaneceu ativa com recursos do Fundeb, parcerias articuladas pela ANAMA e apoio direto das famílias. Segundo Jorge, parte das famílias contribui financeiramente e também com alimentos produzidos em suas comunidades, como farinha e açaí.

Hoje, o principal desafio continua sendo a distância.

Há estudantes que passam até 12 horas em deslocamento de barco para chegar à escola. As mesmas distâncias tornam mais complexas as visitas dos professores às comunidades, que exigem tempo e recursos, mas são parte essencial da Pedagogia da Alternância. É nesses encontros que os educadores conhecem de perto a realidade dos estudantes e acompanham sua trajetória fora da escola.

A escala territorial, portanto, não é apenas uma característica da escola. Ela influencia sua pedagogia, sua rotina e as condições necessárias para que a educação aconteça.

Conhecimento, território e futuro

A experiência da Escola Família Agroextrativista do Carvão mostra que pensar educação nas Amazônias exige considerar as realidades dos territórios, os modos de vida das comunidades e os conhecimentos que já existem nesses lugares.

A EFAC transforma esses elementos em parte da formação escolar. A família participa do processo pedagógico, o território se torna fonte de pesquisa, as atividades produtivas integram a aprendizagem e os conteúdos curriculares dialogam com experiências concretas.

Essa perspectiva se aproxima de uma questão central para a Concertação: qualificar o debate sobre as Amazônias a partir das diferentes realidades que compõem a região e reconhecer conhecimentos produzidos nos próprios territórios.

Na Vila do Carvão, a escola faz isso há quase três décadas. Seu trabalho mostra que uma educação amazônida não precisa escolher entre conhecimento acadêmico e conhecimento territorial. Pode articular ambos para formar jovens capazes de compreender sua realidade, atuar em suas comunidades e participar da construção dos futuros das Amazônias.

Como resume Dalva Miranda da Silva, “aqui se faz construção humana”.

Entrevistas realizadas em agosto de 2026 durante o 3º Encontro da Rede Conexão Povos da Floresta.

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