{"id":58950,"date":"2024-07-22T18:02:08","date_gmt":"2024-07-22T21:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/?p=58950"},"modified":"2025-03-25T11:03:16","modified_gmt":"2025-03-25T14:03:16","slug":"os-impactos-das-tecnologias-da-revolucao-verde-sobre-os-sistemas-alimentares-e-o-meio-ambiente-uma-conversa-com-o-professor-ricardo-abramovay","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/en\/2024\/07\/22\/os-impactos-das-tecnologias-da-revolucao-verde-sobre-os-sistemas-alimentares-e-o-meio-ambiente-uma-conversa-com-o-professor-ricardo-abramovay\/","title":{"rendered":"Os impactos das tecnologias da Revolu\u00e7\u00e3o Verde sobre os sistemas alimentares e o meio ambiente: uma conversa com o professor Ricardo Abramovay"},"content":{"rendered":"\n<p>Ancorado em monoculturas, o sistema agroalimentar global imp\u00f5e impactos significativos \u00e0 sa\u00fade humana e animal, ao meio ambiente e ao clima. Em conversa com a Concerta\u00e7\u00e3o, o professor Ricardo Abramovay (C\u00e1tedra Josu\u00e9 de Castro e Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de S\u00e3o Paulo) discorreu sobre os desafios colocados por esse modelo, bem como os poss\u00edveis caminhos para garantir a alimenta\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o global de oito bilh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Revolu\u00e7\u00e3o Verde<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Abramovay, n\u00e3o existe uma \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para o problema. O sistema atual \u00e9 um resultado complexo de um conjunto de for\u00e7as que foram se constituindo e se relacionando umas com as outras. Ou seja, n\u00e3o se trata de algo espontaneamente estabelecido pelo \u201cmercado\u201d de que se pode escolher \u201cabrir m\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse caminho foi aberto pela chamada \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Verde\u201d, processo iniciado entre os anos 1960-1970. Caracterizado pela introdu\u00e7\u00e3o de tecnologias modernas na agricultura e na pecu\u00e1ria, ele potencializou a produtividade agr\u00edcola ampliando drasticamente a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, reduzindo seus pre\u00e7os e a fome no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora os impactos ambientais da Revolu\u00e7\u00e3o Verde tenham sido questionados desde o in\u00edcio, a cr\u00edtica permaneceu t\u00edmida e marginal diante dos seus resultados para a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria. Isso vale tamb\u00e9m para os impactos sobre a sa\u00fade humana e animal, causados pela monotonia alimentar e pelo elevado consumo de alimentos ultraprocessados. Estes, por sua vez, s\u00e3o produzidos com uso em larga escala de pesticidas, antibi\u00f3ticos e produtos qu\u00edmicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a crise clim\u00e1tica, a eros\u00e3o da biodiversidade e a polui\u00e7\u00e3o decorrente dessas formas produtivas se agravaram a um ponto em que as organiza\u00e7\u00f5es de pesquisa mais importantes do mundo, o meio empresarial e os organismos multilaterais n\u00e3o podem continuar indiferentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os impactos do modelo agr\u00edcola sobre o meio ambiente, a biodiversidade e o clima<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O professor conta que o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial (WEF), embora seja uma entidade representativa do universo empresarial global em di\u00e1logo com o setor p\u00fablico, lan\u00e7ou a iniciativa \u201c<a href=\"https:\/\/initiatives.weforum.org\/new-frontiers-of-nutrition\/home\">New Frontiers of Nutrition<\/a>\u201d, reconhecendo a rela\u00e7\u00e3o entre os alimentos ultraprocessados e a monotonia alimentar, assim como os problemas dela decorrentes. Em seu site, a organiza\u00e7\u00e3o informa que, at\u00e9 o ano de 2050, metade da popula\u00e7\u00e3o adulta do planeta estar\u00e1 clinicamente obesa e que a agropecu\u00e1ria \u00e9 respons\u00e1vel por 80% do desmatamento e perda extensiva da biodiversidade, al\u00e9m de 1\/3 das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Abramovay destaca tamb\u00e9m o trabalho desenvolvido pelo <a href=\"https:\/\/www.cgiar.org\/\">Grupo Consultivo sobre Pesquisa Agr\u00edcola Internacional<\/a>, que vem alertando para os efeitos da monotonia alimentar sobre a sa\u00fade humana. A entidade internacional desenvolve pesquisas dedicadas a reduzir a pobreza, melhorar a seguran\u00e7a alimentar e nutricional, os recursos naturais e servi\u00e7os ecossist\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A estes, soma-se o \u00faltimo relat\u00f3rio do Banco Mundial sobre alimenta\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/tabledebates.org\/research-library\/recipe-liveable-planet\">Recipe for a Liveable Planet<\/a>)&nbsp;e o posicionamento do reconhecido agr\u00f4nomo Cary Fowler, enviado especial dos EUA para seguran\u00e7a alimentar global, que recomendam aos pa\u00edses a ado\u00e7\u00e3o de caminhos mais adaptados \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais ou bioma, em detrimento dos sistemas monoculturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Abramovay registra que, hoje, tanto o \u201cmainstream\u201d cient\u00edfico como o ambiente empresarial e a sociedade civil est\u00e3o mudando de opini\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao tema e aumentando a press\u00e3o sobre as grandes ind\u00fastrias de alimentos, que dependem profundamente desse modelo. Isso \u00e9 importante porque abre caminho para que se discuta o problema n\u00e3o s\u00f3 com pequenos produtores, mas com o setor agropecu\u00e1rio como um todo, que tamb\u00e9m est\u00e1 sofrendo com os eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O contexto brasileiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O professor alerta para o posicionamento da ind\u00fastria brasileira de alimentos por meio da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria Alimentar, que \u00e9 majoritariamente negacionista quanto aos males causados por alimentos ultraprocessados, tema que \u00e9 consenso entre os cientistas de todo o mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, estamos num momento em que a press\u00e3o social, os eventos clim\u00e1ticos extremos e os estudos que mostram que os custos ocultos desse sistema agroalimentar (referentes \u00e0 sa\u00fade, clima, servi\u00e7os ecossist\u00eamicos e correlatos) correspondem ao dobro do faturamento da ind\u00fastria alimentar globalmente, criam um ambiente que permite ampliar o alcance desses questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, existe o crescente interesse de produtores e consumidores por produtos org\u00e2nicos. Abramovay destaca um caso em Sert\u00e3ozinho (SP), onde uma unidade da maior exportadora global desses produtos tem sido procurada por concorrentes que operam no modelo convencional e veem suas capacidades esgotadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo ocorre na regi\u00e3o do Cerrado, onde associa\u00e7\u00f5es re\u00fanem grandes fazendeiros para discutir alternativas diante dos impactos das secas recorrentes. A pecu\u00e1ria j\u00e1 avan\u00e7ou bastante nesse sentido. A Embrapa indica que o Brasil tem condi\u00e7\u00f5es de desenvolver uma pecu\u00e1ria bovina a pasto que praticamente neutralize as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, por meio de diversifica\u00e7\u00e3o de pastagens, introdu\u00e7\u00e3o de leguminosas e plantios arb\u00f3reos (m\u00e9todo Guaxup\u00e9 de cria\u00e7\u00e3o de bovinos). Mas ainda n\u00e3o existe essa alternativa para cria\u00e7\u00e3o de aves e su\u00ednos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Amaz\u00f4nia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 Amaz\u00f4nia, o professor aponta duas consequ\u00eancias importantes da situa\u00e7\u00e3o atual. A primeira \u00e9 que, se nada for feito, a soja continuar\u00e1 a se expandir na regi\u00e3o, j\u00e1 que infraestruturas que permitem a sua comercializa\u00e7\u00e3o continuam a ser instaladas (estradas, portos, armaz\u00e9ns, aduanas, etc.).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda consequ\u00eancia diz respeito aos impactos da crise clim\u00e1tica, que j\u00e1 afetam a produtividade na regi\u00e3o. Isso permite a Abramovay um olhar um pouco mais otimista em rela\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7as na grande agricultura, que j\u00e1 come\u00e7ou a desenvolver trabalhos de pesquisa para seus processos de transi\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A import\u00e2ncia da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o professor, o uso sustent\u00e1vel da biodiversidade da Amaz\u00f4nia tem o potencial de oferecer produtos que se contraponham ao avan\u00e7o dos ultraprocessados, cujos impactos negativos sobre a sa\u00fade humana s\u00e3o conhecidos. O desafio est\u00e1 em encontrar formas de processamento e amplia\u00e7\u00e3o dos mercados para esta biodiversidade que evite tanto as monoculturas quanto o uso de procedimentos pelos quais eles se tornem, eles mesmos, ultraprocessados.<\/p>\n\n\n\n<p>Abramovay tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para o papel das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas na conten\u00e7\u00e3o do desmatamento, recupera\u00e7\u00e3o do bioma e promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento sustent\u00e1vel. Para ele, as mais importantes t\u00eam dois elementos em comum: baixo impacto e amplo acesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo \u00e9 o projeto Conex\u00e3o Povos da Floresta, que est\u00e1 levando internet para o interior da Amaz\u00f4nia. Neste caso, t\u00e3o importante quanto o pr\u00f3prio dispositivo tecnol\u00f3gico \u00e9 o fato de que ele se apoia numa rede e em habilidades para cujo uso e manuten\u00e7\u00e3o os pr\u00f3prios usu\u00e1rios s\u00e3o treinados.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro tema de interesse \u00e9 a riqueza da Amaz\u00f4nia em \u00f3leos vegetais, que representa um dos caminhos poss\u00edveis para emancipa\u00e7\u00e3o de diversos dispositivos atuais de sua depend\u00eancia do \u00f3leo diesel, ainda que a energia solar e a mobilidade el\u00e9trica devam ser mais pesquisadas e desenvolvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor tamb\u00e9m defende ser fundamental levar ao interior da Amaz\u00f4nia (floresta e pequenos munic\u00edpios) dispositivos que permitam a conserva\u00e7\u00e3o e o processamento de produtos florestais. Al\u00e9m dos produtos da sociobiodiversidade, \u00e9 importante apoiar m\u00e9todos de intensifica\u00e7\u00e3o moderada que permitam melhorar a cria\u00e7\u00e3o bovina com base em t\u00e9cnicas que a EMBRAPA vem desenvolvendo, beneficiando especialmente os mais de 400 mil agricultores familiares que se dedicam \u00e0 atividade. E na agricultura, \u00e9 essencial apoiar t\u00e9cnicas regenerativas que valorizem o potencial de diversidade da regi\u00e3o e evitem a monotonia dos sistemas produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bioeconomia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em que pesem as importantes discuss\u00f5es e iniciativas sobre a bioeconomia de produtos florestais, Abramovay acredita que as a\u00e7\u00f5es de regenera\u00e7\u00e3o ainda est\u00e3o longe da escala necess\u00e1ria, sendo o maior obst\u00e1culo a quest\u00e3o do ordenamento territorial e regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria na Amaz\u00f4nia Legal. Por outro lado, existem iniciativas como as da ApexBrasil (Ag\u00eancia Brasileira de Promo\u00e7\u00e3o de Exporta\u00e7\u00f5es e Investimentos) para mobiliza\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas do setor, que s\u00e3o muito promissoras.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 importante ressaltar que a bioeconomia n\u00e3o se restringe \u00e0 economia da sociobiodiversidade florestal. Os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos que v\u00eam sendo destru\u00eddos pela expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria podem ser restaurados por meio da regenera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas. Esta, por sua vez, deve estar no epicentro n\u00e3o apenas da bioeconomia das florestas, mas tamb\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias-primas que comp\u00f5em a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Saiba mais sobre Ricardo Abramovay no <a href=\"https:\/\/ricardoabramovay.com\/\"><strong>site oficial<\/strong><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ancorado em monoculturas, o sistema agroalimentar global imp\u00f5e impactos significativos \u00e0 sa\u00fade humana e animal, ao meio ambiente e ao clima. 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