{"id":76458,"date":"2025-06-24T11:56:28","date_gmt":"2025-06-24T14:56:28","guid":{"rendered":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/?post_type=linha-das-artes&p=76458"},"modified":"2025-06-24T11:56:28","modified_gmt":"2025-06-24T14:56:28","slug":"obras-de-rafael-prado-tem-as-cores-as-memorias-e-a-resistencia-das-amazonias","status":"publish","type":"linha-das-artes","link":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/linha-das-artes\/obras-de-rafael-prado-tem-as-cores-as-memorias-e-a-resistencia-das-amazonias\/","title":{"rendered":"Obras de Rafael Prado t\u00eam as cores, as mem\u00f3rias e a resist\u00eancia das Amaz\u00f4nias"},"content":{"rendered":"\n
Em julho, o trabalho do artista rondoniense passa a inspirar a identidade visual dos nossos canais digitais<\/em><\/p>\n\n\n\n Rafael Prado \u00e9 dono de uma obra de estilo aut\u00eantico e marcante, que nos convida \u00e0 escuta e \u00e0 imers\u00e3o na Floresta Amaz\u00f4nica e nas hist\u00f3rias de sua popula\u00e7\u00e3o. Suas pinturas a \u00f3leo sobre tela nos oferecem a oportunidade de ouvir e entender pessoas, territ\u00f3rios e modos de vida silenciados pela viol\u00eancia, que seguem invis\u00edveis aos olhos de grande parte dos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n Caracterizado por pinceladas grossas, com predomin\u00e2ncia de tons terrosos e verdes, os trabalhos de Rafael trazem tamb\u00e9m o ambiente no qual essas pessoas vivem ou viveram: a atmosfera amaz\u00f4nica densa, \u00famida e quente, onde o calor aperta e as pessoas transpiram. <\/p>\n\n\n\n Em entrevista \u00e0 Concerta\u00e7\u00e3o, o artista pl\u00e1stico natural de Porto Velho (RO) falou sobre sua abordagem da arte como uma maneira de amplificar viv\u00eancias distintas e aproximar mundos.<\/p>\n\n\n\n Por meio da arte, eterniza-se o que se tentou silenciar<\/strong><\/p>\n\n\n\n As escolhas art\u00edsticas de Rafael s\u00e3o insepar\u00e1veis de sua trajet\u00f3ria de vida. Filho de m\u00e3e rondoniense com ascend\u00eancia ind\u00edgena e de pai nordestino, migrante que deixou o Cear\u00e1 na d\u00e9cada de 1980 para trabalhar no garimpo amaz\u00f4nico, ele foi estimulado pela m\u00e3e desde cedo a mergulhar no universo das artes, tendo convivido com artistas e experimentado m\u00faltiplas linguagens. <\/p>\n\n\n\n Nesse universo familiar caracter\u00edstico das Amaz\u00f4nias, cresceu ouvindo diferentes relatos sobre a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e os ciclos de expans\u00e3o econ\u00f4mica que marcaram a hist\u00f3ria de Rond\u00f4nia. Em sua vis\u00e3o, interven\u00e7\u00f5es como o garimpo e a constru\u00e7\u00e3o das grandes hidrel\u00e9tricas n\u00e3o beneficiaram as pessoas do lugar.<\/p>\n\n\n\n Para ele, apesar das promessas de riqueza, esses ciclos marcaram as comunidades locais pela viol\u00eancia. Ao mesmo tempo, produziram seres humanos extraordin\u00e1rios, que se dedicaram \u00e0 defesa da floresta, dos seus habitantes e modos de vida, e que foram silenciados por grupos dominantes. S\u00e3o as vozes, os sonhos e as lutas desses personagens que Rafael quer pintar.<\/p>\n\n\n\n Segundo o artista, \u201ca pintura \u00e9 tradicionalmente algo que resiste ao tempo. Ela dura 500 anos. Voc\u00ea coloca em um museu e preserva, fala para outras gera\u00e7\u00f5es. Conta como era, como se pensava naquele lugar e naquele tempo\u201d. Ao se perguntar quais hist\u00f3rias desejaria contar para si mesmo e para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, e de qual maneira queria olhar para o passado, o artista decidiu falar \u201csobre essas pessoas que foram silenciadas, literalmente apagadas, aniquiladas\u201d. <\/p>\n\n\n\n Durante nossa conversa, Rafael pontuou diversas vezes que o apagamento das mem\u00f3rias faz parte do ambiente amaz\u00f4nida e pode ser observado em m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Ele conta que sua fam\u00edlia, por exemplo, tem ra\u00edzes ind\u00edgenas, \u201cmas como acontece com muita gente na Amaz\u00f4nia, essa hist\u00f3ria foi sendo silenciada dentro de casa. Isso tamb\u00e9m \u00e9 apagamento\u201d. <\/p>\n\n\n\n \u201cQuando uma hist\u00f3ria \u00e9 silenciada, h\u00e1 tamb\u00e9m um apagamento de exist\u00eancia. Minha resist\u00eancia \u00e9 seguir contando, para que n\u00e3o se esque\u00e7a\u201d \u2013 Rafael Prado<\/em><\/p>\n\n\n\n Para Rafael, a arte \u00e9 forma de encantamento e den\u00fancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n Embora de in\u00edcio tenha se interessado por diferentes linguagens art\u00edsticas, foi na pintura que Rafael encontrou o seu caminho. \u00c9 por meio dela que ele melhor expressa as vozes da Amaz\u00f4nia como as imagina. <\/p>\n\n\n\n Sua arte transita entre a realidade, o sonho e os mitos das Amaz\u00f4nias e tem como elementos centrais o realismo m\u00e1gico, a mem\u00f3ria e o engajamento social. Ela conta hist\u00f3rias a partir das \u00f3ticas ind\u00edgena, feminina e negra, que tamb\u00e9m foram invisibilizadas. \u201cPintar essas aus\u00eancias que gritam \u00e9 a minha forma de dar voz a tudo que ainda n\u00e3o foi dito sobre a Amaz\u00f4nia\u201d, afirma. <\/p>\n\n\n\n O universo simb\u00f3lico e cultural de Rafael combina essas aus\u00eancias com personagens h\u00edbridos de humanos, natureza e seres encantados. \u201cNa Amaz\u00f4nia, seres humanos, animais, \u00e1rvores, rios e pedras fazem parte de um mesmo mundo encantado. Chamo isso de encantarias, e \u00e9 com essa linguagem que pinto\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n A maneira como o artista conta essas hist\u00f3rias se confunde com formas narrativas muito pr\u00f3prias da regi\u00e3o, onde s\u00e3o frequentes lendas como a do homem que se transforma em boto, da mulher que vira on\u00e7a ou da origem da mandioca.<\/p>\n\n\n\n Na s\u00e9rie \u201cOs povos amaz\u00f4nicos n\u00e3o morrem, viram semente\u201d a s\u00edntese entre floresta e ser humano<\/strong><\/p>\n\n\n\n Em uma de suas s\u00e9ries mais emblem\u00e1ticas, \u201cOs povos amaz\u00f4nicos n\u00e3o morrem, viram semente\u201d<\/strong>, Rafael combina a natureza com o ser humano ao contar as hist\u00f3rias de l\u00edderes comunit\u00e1rios assassinados, retratando-os como seres h\u00edbridos do humano e do florestal. Ao apresentar verdadeiras fus\u00f5es desses universos, as obras transformam trajet\u00f3rias de luta em s\u00edmbolos de resist\u00eancia e perman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n A s\u00e9rie traz pessoas que foram fundamentais em vida, pelo que fizeram, pelas comunidades que protegeram. Para o artista, s\u00e3o essas vidas, muito mais do que as circunst\u00e2ncias das suas mortes, que precisam ser lembradas.<\/p>\n\n\n\n \u00c9 o caso da hist\u00f3ria de Z\u00e9 Cl\u00e1udio, que Rafael pintou fundido a uma \u00e1rvore. Sua esposa, Maria, aparece como uma pequena cotia, animal que enterra as sementes e, assim, garante a reprodu\u00e7\u00e3o das castanheiras. O casal de castanheiros combatia o desmatamento e foi assassinado no Par\u00e1 em 2011:<\/p>\n\n\n\n Tamb\u00e9m \u00e9 paradigm\u00e1tico dessa s\u00e9rie o retrato que traz o olhar entristecido do acreano Chico Mendes, defensor da floresta e das comunidades extrativistas, assassinado em 1988: J\u00e1 Adelino Ramos, l\u00edder campon\u00eas de Rond\u00f4nia ligado \u00e0 Pastoral da Terra e assassinado em 2011, \u00e9 retratado como \u00e1rvore, com seus bra\u00e7os abertos:<\/p>\n\n\n\n S\u00edntese dessa cole\u00e7\u00e3o de pinturas, a tela a seguir mostra defensores-s\u00edmbolo da floresta em comunh\u00e3o com ela e unidos em sua defesa: Entre o garimpo e o Eldorado: s\u00e9rie apresenta realidade brutal dos ciclos extrativistas das Amaz\u00f4nias<\/strong><\/p>\n\n\n\n A vis\u00e3o cr\u00edtica de Rafael a respeito da explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m aparece de forma contundente em outra de suas s\u00e9ries, inspirada na lenda do Eldorado e no garimpo, intitulada \u201cEldorado: Moldura Criativa do Imagin\u00e1rio Amaz\u00f4nico<\/strong>\u201d. Partindo da hist\u00f3ria m\u00edtica da cidade de ouro, o artista constr\u00f3i um paralelo entre as promessas de riqueza f\u00e1cil que atravessaram os s\u00e9culos e a realidade brutal dos ciclos extrativistas na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n A borracha, o ouro, a madeira, as hidrel\u00e9tricas: todos esses ciclos, segundo Rafael, repetem um mesmo roteiro de falsas promessas de progresso. A prosperidade \u00e9 sempre anunciada, mas nunca chega para quem vive ali. Em vez disso, o que permanece s\u00e3o as marcas da destrui\u00e7\u00e3o ambiental e social.<\/p>\n\n\n\n Esse conjunto de pinturas, que retrata trabalhadores do garimpo, deu origem \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u201c\u00d3rf\u00e3os do Eldorado<\/strong>\u201d, realizada em S\u00e3o Paulo, em 2022. Sobre a s\u00e9rie, o artista escreveu em seu Instagram:<\/p>\n\n\n\n \u201cNo meio da floresta amaz\u00f4nica, o calor e a umidade s\u00e3o igualmente intensos. Distantes de qualquer vilarejo, homens cavam a terra em busca de ouro. Nesse lugar n\u00e3o se escuta o som dos animais, n\u00e3o se percebe o som da floresta, apenas o barulho ensurdecedor do motor da draga ligado 24 horas por dia\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n A obra a seguir fez parte da mostra e exibe um garimpeiro determinado em encontrar o t\u00e3o sonhado ouro. No entanto, tudo o que essa determina\u00e7\u00e3o produz \u00e9 o deserto \u00e0 sua volta:<\/p>\n\n\n\n A arte de Rafael atua como porta de entrada para as Amaz\u00f4nias<\/strong><\/p>\n\n\n\n A obra de Rafael Prado \u00e9 um exemplo da arte como porta de acesso e de (re)conhecimento da regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Ao pintar as vidas e os sacrif\u00edcios de pessoas reais, ele revela muitas realidades e as conecta com quem desconhece suas aspira\u00e7\u00f5es e lutas. Rafael convoca a pot\u00eancia da arte para que o apagamento n\u00e3o prospere e esses her\u00f3is do cotidiano amaz\u00f4nico n\u00e3o sejam esquecidos.<\/p>\n\n\n\n Assim como n\u00f3s, da Concerta\u00e7\u00e3o, Rafael acredita na arte e na cultura como caminhos para o (re)conhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Elas s\u00e3o aliadas essenciais para enxergar a complexidade das m\u00faltiplas Amaz\u00f4nias, n\u00e3o como algo distante, mas como territ\u00f3rio que pulsa e nos convida a (re)conhec\u00ea-lo por meio das express\u00f5es e hist\u00f3rias de quem o habita.<\/p>\n\n\n\n \u201cQuero que quem n\u00e3o conhece a Amaz\u00f4nia sinta, por meio da minha pintura, que esse territ\u00f3rio \u00e9 vivo, e que suas hist\u00f3rias importam\u201d.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n Indagado sobre os seus sonhos para o futuro, o artista responde com uma simplicidade que, ao mesmo tempo, exp\u00f5e uma importante ambi\u00e7\u00e3o. \u201cSonho com mais centros culturais em Rond\u00f4nia, lugares onde as pessoas possam se reconhecer, criar e valorizar suas hist\u00f3rias\u201d, explica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Rafael Prado \u00e9 dono de uma obra de estilo aut\u00eantico e marcante, que nos convida \u00e0 escuta e \u00e0 imers\u00e3o na Floresta Amaz\u00f4nica e nas hist\u00f3rias de sua popula\u00e7\u00e3o. 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