A artista lida com esse universo \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira. Sua obra reflete a forma como ela aborda, atravessa e contesta as fronteiras que a vida lhe apresenta, sejam estas espirituais, simb\u00f3licas, culturais, materiais ou territoriais, vis\u00edveis ou invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n
Ela ressalta que os Huni Kuin veem seu territ\u00f3rio como um lugar no qual divis\u00f5es humanas – como fronteiras pol\u00edticas, territoriais ou aquelas existentes entre ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas, n\u00e3o s\u00e3o importantes diante da imensid\u00e3o e da interconex\u00e3o do universo natural e espiritual.<\/p>\n\n\n\n
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Nas pinturas de Rita, a linguagem do esp\u00edrito do povo Huni Kuin \u00e9 traduzida em cor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<\/div>\n\n\n\n
Rita conta que os cantos da ayahuasca s\u00e3o muito dif\u00edceis de explicar em palavras, mesmo para os membros da etnia. Com a ideia de traduzi-los em forma de pintura, seu pai, Isa\u00edas Sales (Ib\u00e3), criou o aclamado coletivo MAHKU – Movimento dos Artistas Huni Kuin, do qual hoje ela faz parte.<\/p>\n\n\n\n
Uma caracter\u00edstica marcante da arte do MAHKU \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de elementos da natureza, da cultura Huni Kuin e do mundo da espiritualidade alcan\u00e7ado nos rituais nixi pae, por meio do uso intenso de cores vibrantes que, de acordo com Rita, \u201cj\u00e1 s\u00e3o, por si, uma forma de tradu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n
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O protagonismo das mulheres na cultura Huni Kuin \u00e9 resgatado nas obras de Rita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<\/div>\n\n\n\n
O olhar cr\u00edtico para os limites impostos \u00e0s mulheres tamb\u00e9m se destaca em sua trajet\u00f3ria. Rita conta que iniciou seu percurso na pintura em 2009, quando seu pai criou o MAHKU. Inicialmente, tanto ela como sua irm\u00e3 Yak\u00e1 Huni Kuin n\u00e3o foram inclu\u00eddas no coletivo, que teve a associa\u00e7\u00e3o restrita aos homens. No entanto, inspiradas e provocadas pelo trabalho do pai e do movimento, elas desenvolveram uma linguagem pr\u00f3pria, com tra\u00e7os femininos fortes e vis\u00f5es singulares da espiritualidade Huni Kuin. Com o tempo, a for\u00e7a de sua arte abriu o caminho para elas.<\/p>\n\n\n\n
Rita lembra de um epis\u00f3dio determinante para sua entrada no MAHKU. Quando solicitada a apoiar uma exposi\u00e7\u00e3o em Manaus, ela prop\u00f4s \u00e0 curadora algo novo: al\u00e9m das pinturas, a mostra deveria trazer os cantos da ayahuasca e a sua hist\u00f3ria. A ideia surpreendeu e impressionou seu pai que, a partir de ent\u00e3o, passou a reconhecer sua contribui\u00e7\u00e3o para a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura da etnia e permitiu sua associa\u00e7\u00e3o ao coletivo.<\/p>\n\n\n\n
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\u201cQuero mostrar que o mundo da arte pode ser muito mais preservado com as mulheres \u00e0 frente\u201d \u2013 Rita Huni Kuin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<\/div>\n\n\n\n
Para a artista, esse \u201cmachismo\u201d n\u00e3o \u00e9 um tra\u00e7o cultural pr\u00f3prio de seu povo. Trata-se de heran\u00e7a da coloniza\u00e7\u00e3o, do conv\u00edvio com a sociedade n\u00e3o ind\u00edgena. \u201cHoje, estamos lutando para retomar nossa antiga tradi\u00e7\u00e3o matriarcal\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n
Um exemplo dessa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a lenda que conta a origem da ayahuasca, que teria sido presenteada ao povo Huni Kuin pela mulher-jiboia. \u201cFoi ela quem encantou o \u00edndio ca\u00e7ador Yube Inu. Ele provou da ayahuasca, teve vis\u00f5es e, quando morreu, virou a pr\u00f3pria planta. A ayahuasca veio do povo da jiboia\u201d, explica Rita.<\/p>\n\n\n\n
Assim, sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica naturalmente d\u00e1 destaque \u00e0s figuras femininas que representam for\u00e7as ancestrais na cultura Huni Kuin. A tela abaixo, por exemplo, traz uma representa\u00e7\u00e3o dessa mulher-jiboia-encantada, a Yube Shanu. Ao comentar a obra, Rita conta que \u201ca primeira m\u00fasica que cantamos quando tomamos a ayahuasca \u00e9 a \u2018Yube Nawa Ainbu\u2019 (mulher jiboia encantada). \u00c9 uma forma de chamar a for\u00e7a\u201d:<\/p>\n\n\n\n
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J\u00e1 a pintura abaixo mostra a Muk\u00e1, tamb\u00e9m chamada Mukani, uma figura ligada \u00e0 planta de mesmo nome, considerada a mais poderosa na cultura Huni Kuin. A mulher Muk\u00e1 \u00e9 s\u00edmbolo de transforma\u00e7\u00e3o e cura espiritual. Rita explica que a tela incorpora tr\u00eas elementos principais: a mulher, a jiboia e a aranha. Representado por suas teias, este animal foi quem ensinou as mulheres Huni Kuin a tecer. \u201cQuando fa\u00e7o uma pintura inspirada na Mukani, eu a vejo como uma transforma\u00e7\u00e3o de vida\u201d, comenta Rita.<\/p>\n\n\n\n
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Por sua vez, a imagem a seguir revela outra forma de ver a mulher-jiboia, agora ligada ao canto das \u00e1guas e \u00e0 cura atrav\u00e9s delas. A luz que ela emana representa a for\u00e7a espiritual. O canto ritual representado aqui fala de animais aqu\u00e1ticos que enxergam de dia e de noite, uma met\u00e1fora para a vis\u00e3o espiritual. De acordo com a artista, \u201cesse \u00e9 o canto da cura que segue o caminho das \u00e1guas. A \u00e1gua \u00e9 a vida\u201d. <\/p>\n\n\n\n
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A arte de Rita Huni Kuin \u00e9 tamb\u00e9m uma poderosa manifesta\u00e7\u00e3o sobre a complexidade das fronteiras em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es: f\u00edsicas, culturais, espirituais e pol\u00edticas <\/strong><\/p>\n\n\n\nRita utiliza a arte como meio para desafiar as divis\u00f5es estabelecidas e, ao mesmo tempo, reafirmar a uni\u00e3o profunda entre os povos ind\u00edgenas e a natureza, ultrapassando as barreiras criadas pelo colonialismo, pela moderniza\u00e7\u00e3o e pelas fronteiras nacionais. Sua obra reflete n\u00e3o apenas sobre as barreiras externas, mas tamb\u00e9m aquelas internas, que se relacionam com as percep\u00e7\u00f5es e as conex\u00f5es humanas com o mundo ao nosso redor.<\/p>\n\n\n\n
Em mais um exemplo da maneira como a artista explora essas in\u00fameras divisas, a tela abaixo traz sua representa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do jacar\u00e9 que serviu de ponte para a \u201ctravessia do conhecimento\u201d. Esse mito fala sobre a separa\u00e7\u00e3o entre o mundo ind\u00edgena e o n\u00e3o ind\u00edgena. O animal ajuda na travessia da fronteira entre os dois universos, representada pelo rio, mas desaparece quando lhe oferecem um filhote da sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie para que se alimente (s\u00edmbolo de autodestrui\u00e7\u00e3o). Segundo Rita, \u201co jacar\u00e9 serviu de ponte para atravessar o conhecimento. Quem passou, passou; quem ficou, ficou\u201d:<\/p>\n\n\n\n
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Kayatibu, a voz da floresta, mostra que n\u00e3o existem barreiras na arte<\/strong><\/p>\n\n\n\nO ativismo ind\u00edgena de Rita tamb\u00e9m a leva a desbravar outros territ\u00f3rios art\u00edsticos, pois para ela n\u00e3o devem existir barreiras entre as diferentes linguagens. Foi com base nessa premissa que ela participou em 2013 da cria\u00e7\u00e3o do ponto de cultura e do grupo musical Kayatibu (\u201ccura do esp\u00edrito\u201d), que re\u00fane jovens ind\u00edgenas artistas e comunicadores da regi\u00e3o do Rio Jord\u00e3o (AC). Atualmente, a sede do Kayatibu \u00e9 um ponto de encontro tamb\u00e9m para os mais velhos de diversas aldeias Huni Kuin.<\/p>\n\n\n\n
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A imagem acima foi criada pela artista para ser a capa do primeiro \u00e1lbum do Kayatibu, dispon\u00edvel em plataformas de streaming. A obra mostra a Suma\u00fama como s\u00edmbolo de conex\u00e3o com a floresta. Para Rita, essa \u00e1rvore est\u00e1 relacionada \u00e0s cores, \u00e0 m\u00fasica e \u00e0 for\u00e7a da floresta. Ela representa o canto, a espiritualidade e a colabora\u00e7\u00e3o entre m\u00fasicos tradicionais da floresta e os profissionais da cidade.<\/p>\n\n\n\n
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\u2018Vendo tela, compro terra\u2019 \u00e9 lema para atravessar o caminho para o futuro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<\/div>\n\n\n\n
A inseguran\u00e7a territorial dos povos ind\u00edgenas \u00e9 uma barreira objetiva \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da cultura Huni Kuin. Por\u00e9m, para Rita, tornou-se uma oportunidade de estabelecer uma conex\u00e3o entre sua obra e o ativismo ind\u00edgena. Como parte do MAHKU, a artista abra\u00e7ou o lema \u201cvendo tela, compro terra\u201d, que faz da arte uma estrat\u00e9gia de soberania territorial.<\/p>\n\n\n\n
Seu pai, Ib\u00e3, idealizou essa proposta durante o governo Bolsonaro como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 inseguran\u00e7a fundi\u00e1ria enfrentada pelos povos ind\u00edgenas naquele per\u00edodo. O prop\u00f3sito \u00e9 a aquisi\u00e7\u00e3o de terras para proteg\u00ea-las do desmatamento, al\u00e9m de manter vivas suas tradi\u00e7\u00f5es. \u201cConforme vendemos nossas obras, compramos terra para proteger. N\u00e3o \u00e9 para criar gado, \u00e9 para plantar, reflorestar, acolher. \u00c9 pensar no futuro, nos netos, nos bisnetos\u201d, ela explica.<\/p>\n\n\n\n
A consolida\u00e7\u00e3o da carreira art\u00edstica tem favorecido a concretiza\u00e7\u00e3o desse objetivo. Entre as conquistas de Rita, est\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o em exposi\u00e7\u00f5es por todo o Brasil e tamb\u00e9m no exterior. Hoje, sua arte alcan\u00e7a novos territ\u00f3rios e constr\u00f3i conex\u00f5es com in\u00fameros outros povos. Em 2024, al\u00e9m de ter sido indicada ao Pr\u00eamio Pipa, participou de turn\u00eas anuais pela Europa junto com outros artistas, principalmente Alemanha e Reino Unido.<\/p>\n\n\n\n
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\u201cQuero construir uma casa de arte onde a gente possa viver a cura, a cria\u00e7\u00e3o e a troca. A fronteira, para mim, \u00e9 uma troca de sabedoria – um atravessamento positivo\u201d \u2013 Rita Huni Kuin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<\/div>\n\n\n\n
Hoje, a artista sonha em construir uma \u201ccasa de arte\u201d para receber artistas ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas em resid\u00eancias, fortalecendo interc\u00e2mbios, trocas e a espiritualidade, assumindo seu destino de \u201catravessadora de fronteiras\u201d.<\/p>\n\n\n\n
Ao ser questionada sobre o que deseja despertar nas pessoas com suas pinturas, responde sem hesitar: \u201cquero que elas sintam, no cora\u00e7\u00e3o, um pedacinho da floresta. Que mesmo sem entender o que est\u00e3o vendo, possam se conectar com a alma daquela imagem\u201d.<\/p>\n\n\n\n