{"id":53854,"date":"2024-04-26T14:54:00","date_gmt":"2024-04-26T17:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/?post_type=linha-das-artes&amp;p=53854"},"modified":"2024-04-26T14:54:00","modified_gmt":"2024-04-26T17:54:00","slug":"dacordobarro","status":"publish","type":"linha-das-artes","link":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/linha-das-artes\/dacordobarro\/","title":{"rendered":"Dacordobarro: nasce uma artista"},"content":{"rendered":"\n<p>As t\u00e9cnicas que ela utiliza s\u00e3o t\u00e3o diversas quanto sua inspira\u00e7\u00e3o, passando por fotografia, lambe-lambe, grafite e colagens. O autorretrato est\u00e1 presente de maneira muito forte em sua obra, como um estudo da imagem do seu corpo negro junto aos espa\u00e7os da cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o cenas do cotidiano amaz\u00f4nico que trazem fachadas, frutas, cores, cheiros, objetos e mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, nas quais o caos acompanha seu pensamento fren\u00e9tico e incorpora diversas pautas e linguagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja por interven\u00e7\u00f5es urbanas, pe\u00e7as de artesanato ou exposi\u00e7\u00f5es, a artista provoca uma sobreposi\u00e7\u00e3o de questionamentos que levam o espectador a confrontar sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de mundo, da Amaz\u00f4nia, de cidade e do outro.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns alignwide are-vertically-aligned-center ucpa-highlight has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"background-color:#e7ebf3\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p><em>Ao ouvir repetidamente que \u201csonhava demais\u201d e que jamais conseguiria realizar seus sonhos, Dacordobarro entendeu que era necess\u00e1rio se reconhecer como \u201cum ser muito grande para alcan\u00e7ar lugares maiores do que eu\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nesta obra, cuja exibi\u00e7\u00e3o a artista autoriza pela primeira vez, ela aparece maior que a cidade, confrontando seus vizinhos, o racismo, o machismo e os limites que lhe foram impostos. Trata-se da rua onde ela vivia, em Manaus, e revela sua tomada de consci\u00eancia de que \u00e9 poss\u00edvel olhar o mundo para al\u00e9m do que as pessoas lhe diziam ser permitido. \u201cSonhar mais, alcan\u00e7ar mais Existe um mundo al\u00e9m do meu bairro ou das fronteiras de Manaus que eu tamb\u00e9m posso almejar\u201d. No alto, \u00e0 direita, a m\u00e3o de sua m\u00e3e lhe entrega uma figa, s\u00edmbolo que na Umbanda tem poder de prote\u00e7\u00e3o quando \u00e9 repassado.<\/em><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-style-default\" style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dacordobarro-02-724x1024.jpeg\" alt=\"Arte de Dacordobarro\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>\u201cMaior que as muralhas que criaram ao meu redor\u201d (2020)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Dacordobarro foi criada por m\u00e3e adotiva e \u201csolo\u201d, que lhe trouxe as primeiras refer\u00eancias, tanto do universo feminino como dos universos do trabalho, dos afetos e das express\u00f5es art\u00edsticas. Sua m\u00e3e era tamb\u00e9m artes\u00e3, embora n\u00e3o se enxergasse dessa forma. Em casa, ela costumava criar muitos dos objetos que a fam\u00edlia n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de adquirir, \u201ctornando muito natural o ato de confeccionar coisas com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme crescia, novas refer\u00eancias foram adicionadas a partir das camadas de suas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Aos 14 anos, a artista entrou pela primeira vez em um centro cultural e conheceu uma exposi\u00e7\u00e3o de artes visuais. Foi quando se deu conta de que uma forma de express\u00e3o tamb\u00e9m poderia ser vista como um trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos artistas da exposi\u00e7\u00e3o estava no local e, de acordo com Dacordobarro, \u201calugou um triplex em sua cabe\u00e7a\u201d ao explicar que, embora seja importante estudar, n\u00e3o basta fazer um curso para ser artista: a arte tem uma rela\u00e7\u00e3o profunda com experi\u00eancias e viv\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A conversa foi definidora de seu caminho. Dacordobarro, que j\u00e1 era envolvida com a fotografia desde os 10 anos, encontrou na arte uma forma de fuga dos pap\u00e9is sociais que via atribu\u00eddos a si. Ela iniciou um trabalho incessante de pesquisa, aprofundamento e expans\u00e3o de sua express\u00e3o por meio de t\u00e9cnicas como pintura, lambe-lambe, grafite, colagem e imagens digitalizadas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns alignwide ucpa-highlight has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"background-color:#e7ebf3\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dacordobarro-03-724x1024.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>\u201c\u00c1gua \u00e9 leite materno\u201d (2021)<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p><em>Esta colagem que circulou por diversas exposi\u00e7\u00f5es mostra a mesma rua da obra \u201cMaior que as muralhas que criaram ao meu redor\u201d. Pavimentada por cima de um rio, ela alaga quando chove. A artista aparece sentada tomando banho de cuia, h\u00e1bito antigo de que gosta muito e que remete aos longos anos em que n\u00e3o teve \u00e1gua encanada em casa. Ela explica que o trabalho reflete sua percep\u00e7\u00e3o de que a natureza \u00e9 a nossa m\u00e3e e a \u00e1gua do rio \u00e9 o leite materno.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Sua determina\u00e7\u00e3o a levou at\u00e9 a Faculdade de Artes Visuais da Universidade do Amazonas, tornando-a a primeira pessoa de sua fam\u00edlia a ser alfabetizada, frequentar uma universidade e viver experi\u00eancias que n\u00e3o sejam um tipo de trabalho em que \u201ca pessoa n\u00e3o \u00e9 vista como um ser humano\u201d. \u00c9 a primeira tamb\u00e9m a poder \u201cfalar em primeira pessoa\u201d e circular por outros espa\u00e7os, num processo de \u201ccuras geracionais\u201d em muitos sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ensino superior lhe forneceu um conjunto de t\u00e9cnicas e aptid\u00f5es, mas sua viv\u00eancia pr\u00e9-adolescente com a fotografia e a colagem tem profunda rela\u00e7\u00e3o com seu trabalho at\u00e9 hoje. S\u00e3o essas as t\u00e9cnicas que possibilitam sobrepor mem\u00f3ria, autoestima e percep\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Dacordobarro conta que demorou muito tempo para entender a si mesma como uma cidad\u00e3 dentro do espa\u00e7o urbano, um lugar que tamb\u00e9m constr\u00f3i cultura, tecnologia, ci\u00eancia e saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a s\u00e9rie de viagens que realizou pelo pa\u00eds a partir de 2015 foi fundamental. Em 2018, \u201ccansada do racismo e da aus\u00eancia de di\u00e1logo\u201d que emergiram \u00e0 sua volta com o novo contexto pol\u00edtico, ela deixou a Regi\u00e3o Norte e deu in\u00edcio a uma viagem de dois anos pelos estados do Maranh\u00e3o, Cear\u00e1, Bahia, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns alignwide ucpa-highlight has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"background-color:#e7ebf3\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p><em>Nesta colagem, o rosto da artista aparece parcialmente, exibindo um corte de cabelo \u201ct\u00edpico da quebrada, mais frequentemente utilizado por homens\u201d. A obra retrata a sobreposi\u00e7\u00e3o de acontecimentos, imagens, cheiros, mem\u00f3rias e pensamentos ao longo de uma tarde aparentemente rotineira em Manaus, quando ela saiu para cortar o cabelo, comprar pupunha e tomar um tacac\u00e1.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No canto superior esquerdo, um dos recortes mostra sua m\u00e3o segurando seu primeiro celular, objeto que \u201cpermite que as pessoas dialoguem, mantenham v\u00ednculos\u201d. Ela conta que sua m\u00e3e o guardou, assim como faz compulsivamente com todos os objetos de sua inf\u00e2ncia, garantindo acesso a mem\u00f3rias que de outra forma estariam ausentes da sua vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No canto direito, ao fundo, h\u00e1 ainda a imagem de um poste de luz, fragmento de outra obra pela qual Dacordobarro tem muito carinho, a interven\u00e7\u00e3o urbana \u201cCrian\u00e7as s\u00e3o sementes\u201d, realizada em Niter\u00f3i. Repleto de liga\u00e7\u00f5es clandestinas de energia, o poste caracter\u00edstico de periferias urbanas brasileiras \u00e9 visto pela artista como a materializa\u00e7\u00e3o da ideia de conex\u00e3o e conviv\u00eancia entre pessoas, uma ambi\u00eancia familiar e acolhedora.<\/em><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dacordobarro-32-768x1024.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>\u201cSonhos com tacac\u00e1 e pupunha\u201d<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>A aventura terminou em 2020 devido \u00e0 pandemia de Covid-19. Ao retornar a Manaus, pela primeira vez ela se reconheceu pertencendo \u00e0 cidade. E se deu conta do quanto s\u00e3o preciosas e afetivas suas mem\u00f3rias daquele local que antes tinha um significado de viol\u00eancia e falta.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nessa nova percep\u00e7\u00e3o, Dacordobarro passou a desenvolver a s\u00e9rie \u201cManaus 40 graus\u201d e outras em que investiga a rela\u00e7\u00e3o de seu corpo de mulher negra, macumbeira, com a complexidade de viver a di\u00e1spora negra e ind\u00edgena no centro de Manaus.<\/p>\n\n\n\n<p>A circula\u00e7\u00e3o desses trabalhos tem lhe permitido conhecer outras pessoas, refletir, falar, superar preconceitos, e principalmente, recuperar ou construir a autoestima de ser manauara.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns alignwide ucpa-highlight has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-28f84493 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"background-color:#e7ebf3\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p>S\u00e3o tr\u00eas os nomes dessa artista extraordin\u00e1ria, escolhidos conforme a energia que se estabelece quando da cria\u00e7\u00e3o de uma obra:<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p><strong>Kerolayne Kemblin<\/strong> \u00e9 seu nome de registro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Skarlati<\/strong> \u00e9 o nome que sua m\u00e3e adotiva escolheu para ela, mas nunca chegou a oficializar. Ela s\u00f3 soube desse nome em 2020, quando encontrou uma antiga carta do irm\u00e3o, que vivia em Fortaleza, perguntando por ela como Skarlati.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 <strong>Dacordobarro<\/strong> \u00e9 o apelido que ganhou aos dois anos, quando a fam\u00edlia vivia numa palafita. Kerolayne sofreu um acidente e caiu num po\u00e7o de barro que havia embaixo da casa. Foi a m\u00e3e quem a reanimou. O apelido ficou, inclusive porque o bairro em que viviam tinha tanta lama que seus pezinhos de crian\u00e7a estavam sempre sujos. \u00c9 uma forma carinhosa de lembrar que renasceu nesse lugar.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A artista visual manauara Dacordobarro (Kerolayne Kemblin), que passa a inspirar os canais digitais da Concerta\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i seu processo criativo a partir de um potente esfor\u00e7o de recupera\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, em que fragmentos  de recorda\u00e7\u00f5es d\u00e3o vida, corpo e sentido \u00e0 sua reflex\u00e3o sobre o universo art\u00edstico brasileiro, em particular aquele que \u00e9 racializado<\/p>\n","protected":false},"featured_media":52412,"template":"","paises":[59],"estados":[63],"cidades":[65],"ano":[72],"eixos":[],"class_list":["post-53854","linha-das-artes","type-linha-das-artes","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/linha-das-artes\/53854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/linha-das-artes"}],"about":[{"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/linha-das-artes"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52412"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"paises","embeddable":true,"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/paises?post=53854"},{"taxonomy":"estados","embeddable":true,"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/estados?post=53854"},{"taxonomy":"cidades","embeddable":true,"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/cidades?post=53854"},{"taxonomy":"ano","embeddable":true,"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/ano?post=53854"},{"taxonomy":"eixos","embeddable":true,"href":"https:\/\/concertacaoamazonia.com.br\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/eixos?post=53854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}